segunda-feira, 21 de novembro de 2016

A (IN)SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL NO CONTEXTO  DA LÓGICA IMPERIALISTA

Alícia Mallmann[1]
Mirele Hashimoto[2]

INTRODUÇÃO

Este artigo é fruto de indagações oriundas a partir da disciplina optativa de Núcleo Temático “Meio Ambiente, Desenvolvimento Sustentável e Educação Ambiental: Conflitos Socioambientais, direitos e Serviço Social” do curso de Serviço Social da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE –, campus de Toledo, ministrada pela docente Dra. Marli Renate Von Borstel Roesler.
Trata-se de um artigo fundamentado em pesquisa bibliográfica acerca do tema sustentabilidade com o objetivo de compreender os reflexos do atual estágio do desenvolvimento capitalista (imperialismo) na sustentabilidade ambiental. Para tanto, a presente sistematização de ideias está divida em dois pontos:
O primeiro tratará de uma breve contextualização do desenvolvimento do capitalismo ao longo de seu percurso histórico: resgatando a fase comercial ou mercantil e, em seguida, a fase concorrencial procura-se fornecer elementos para apreensão das bases que desencadearam no capitalismo imperialista.
O segundo ponto, por sua vez, centrará em analisar a categoria sustentabilidade e, por conseguinte, a questão ambiental na perspectiva de compreender o conteúdo ideológico que se oculta por de trás desta categoria. Revelar sua problematização significa evidenciar a relação que mantém com os processos produtivos e econômicos da ordem capitalista: é esta relação ineliminável entre (in)sustentabilidade e modo de produção de capitalista que permite estabelecer um ponto de congruência entre exploração ambiental imperialista e os (des)caminhos da sustentabilidade no planeta. Superar esta lógica implica suprimir a forma de sociabilidade do capital que, por si mesma, é antiecológica e destrutiva: a construção do ecosocialismo não é senão a alternativa que se apresenta para dilaceração burguesa.


1 O IMPERIALISMO: UMA CONSTRUÇÃO HISTÓRICA DO GRANDE CAPITAL


Compreender o imperialismo enquanto construção histórica do grande capital implica em partir do pressuposto de que, segundo Ianni (1996), a história humana é eminentemente um processo de bases materiais e objetivas: sua construção está condicionada a ação coletiva do conjunto de homens da sociedade, os quais se colocam na história por meio de seu intercâmbio natural e eterno com a natureza[3].
Conforme Netto e Braz (2008), o capital é uma relação social. Como tal é constituído por uma relação dialética passível de mutações e transformações. “[...] capital é movimento, dinamizado pelas suas contradições [...]; o capitalismo não só é história, mas tem própria história [...]” (NETTO; BRAZ, 2008, p. 169, grifos do autor): a partir de transformações desencadeadas ainda no interior das antigas relações feudais, o capitalismo engendrou condições propícias para a instauração de uma nova ordem social subordinada aos seus próprios interesses.
Por constituir-se numa incessante dinâmica de mobilidade e transformação, de acordo com Netto e Braz (2008), o capitalismo alterou-se ao longo de seu desenvolvimento econômico. Como bem demarca Marx (2008), este processo de desenvolvimento é condicionado pelo nível de complexidade adquirida pelas forças produtivas: são elas que indicam o maior ou menor grau de promoção das forças comerciais e de consumo numa determinada sociedade. Nesse sentido, três estágios de desenvolvimento são verificados no processo de gradação do modo de produção capitalista, quais sejam:
1)   O capitalismo comercial ou mercantil. Caracteriza-se pela fase inicial do capitalismo, emergindo a partir do século XVI e permanecendo até meados do século XVIII. Ainda no interior do modo de produção feudal, a figura do artesão representava as relações sob quais se assentavam o processo de trabalho. Segundo Batista (2014), este período é caracterizado pelo domínio do trabalhador artesão de todos os elementos que compõe o processo de trabalho: controlava diretamente a extração da matéria-prima, os instrumentos de trabalho e o produto final no interior dos ofícios. Criava-se, portanto, uma

[...] unidade entre o pensar e o fazer do artesão [...]. [Sua] autonomia [...] em todo o processo de trabalho, abria a possibilidade de os seres sociais exercitarem o campo da liberdade em diferentes sentidos (a liberdade de escolha ampliava o grau de reflexo em suas ações cotidianas, possibilitando avançarem em direção ao ser genérico) (BASTISTA, 2014, p. 216).

Conforme Batista (2014), o artesanato autônomo viu-se em declínio na medida em que os burgueses comerciantes em ascensão, ainda no interior da sociedade feudal, passaram a ganhar força e prevalecer sobre a nova conjuntura que se instaurava. Os artesãos que antes dominavam todo o processo de trabalho nos ofícios encontravam-se agora ceifados da autonomia de decidir sobre o que, como e para quem produzir: sua “[...] vontade foi comprada pelo proprietário capitalista em processo de formação industrial em grande escala” (BATISTA, 2014, p. 218), além de passar a desenvolver apenas uma parcela do processo de trabalho. Este processo é caracterizado pela chamada acumulação primitiva que “[...] é, portanto, nada mais que o processo histórico de separação entre produtor e meio de produção. Ele aparece como ‘primitivo’ porque constitui a pré-história do capital e do modo de produção que lhe corresponde” (MARX, 1996, p. 340).
2)   O capitalismo concorrencial. De acordo com Netto e Braz (2008), predomina desde a oitava década do século XVIII até o último terço do século XIX. O capitalismo concorrencial consolidou-se enquanto regime global de acumulação do capital a partir da Revolução Francesa em 1789: a burguesia, empunhando a luta pela “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” e unindo-se ao Terceiro Estado – trabalhadores – promoveu uma revolução nas bases materiais da sociedade, derrubando os antigos pilares da organização feudal, isto é, a clero e a nobreza. Segundo Huberman (1985), após conquistar o poder político e econômico, a burguesia voltou-se contra aqueles que a auxiliaram a chegar ao poder: excluíram os trabalhadores dos avanços conquistados com a Revolução e instauraram uma ordem fundada na exploração do trabalho pelo capital.
Conforme Netto e Braz (2008), este estágio do desenvolvimento capitalista caracteriza-se pelo intenso processo de urbanização, pela consolidação da grande indústria e pela criação do mercado mundial: os países desenvolvidos passam a explorar as matérias-primas de outros países do mundo e passam a disseminar suas mercadorias produzidas em grande escala. Tais mercadorias invadem a área comercial de diversos povos, nações e Estados, operando uma integração hegemônica do modo de produção capitalista em nível global. Esta fase caracteriza-se ainda pela diferenciação da classe capitalista em relação ao volume de capital concentrado em suas mãos: a existência de grandes, médios e pequenos capitalistas era o que proporcionava a consolidação de uma concorrência sem limites e desenfreada entre eles[4] no marco do capitalismo concorrencial.
3)   O imperialismo. Ascende nas três últimas décadas do século XIX e permanece até os dias atuais. Conforme Netto e Braz (2008), o ingresso no estágio imperialista do capitalismo está associado a três processos: 1) a segunda Revolução Industrial. Desenvolve-se como um mecanismo de caráter técnico científico que viabiliza profundas mudanças na operacionalização das forças produtivas. Ao incorporar os avanços da indústria química, da eletricidade – que emerge em 1881 –, do petróleo e do aço, engendra transformações que impactaram no estabelecimento de uma industrialização pesada. 2) surgimento dos monopólios. Se na fase concorrencial do capitalismo a concorrência caracterizava-se por seus limites desenfreados, o que se observa no presente estágio é uma modificação estrutural: a concentração[5] e centralização[6] do capital provocou a formação de grandes monopólios na medida em que “Um elevado número de pequenas empresas é derrotado na concorrência por um número restrito de grandes empresas, que controlam uma fração crescente do capital, dos trabalhadores e da produção” (SALAMA; VALIER, 1975, p. 62-63). Esta tendência à monopolização do capital, conforme Netto e Braz (2008), passa a se expandir para além das fronteias nacionais, incidindo sob as demais regiões do globo. 3) mudança do papel dos bancos. Na fase capitalista precedente ao imperialismo, os bancos reduziam-se a intermediários de pagamentos: acompanhando o processo de concentração e centralização do capital, os bancos no estágio imperialista tornaram-se um sistema de crédito; “[...] transformaram o capital-dinheiro em capital ativo, isto é, criador de lucro, e, reunindo os diversos rendimentos em espécie, eles colocam-nos à disposição da classe dos capitalistas” (LENIN, 1979, p. 30). Este movimento permitiu fazer com que os bancos detivessem, por meio da compra de ações, parte dos monopólios industriais: a fusão entre monopólios industriais e bancos resultaram-se precisamente no capital financeiro.
Lenin (1979) aponta cinco traços fundamentais do capitalismo imperialista: 1) a concentração do capital traduzido por meio dos monopólios; 2) o capital financeiro; 3) a exportação de capitais, 4) a partilha do mundo entre os grupos capitalistas nacionais e; 5) a partilha do mundo entre as grandes potências internacionais[7]. Analisar estes traços fundamentais do imperialismo, em particular, a partilha do mundo entre as grandes potências internacionais coloca-se como elemento indispensável para compreender os principais impactos do atual estágio da dinâmica capitalista em relação à sustentabilidade do meio ambiente. Explicitar esta relação é, pois, objetivo que se propõe investigar no próximo ponto.


2 OS (DES)CAMINHOS DA SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL NO CENÁRIO IMPERIALISTA

Compreender os impactos da lógica imperialista no meio ambiente requer, de início, conceituar a categoria sustentabilidade. De acordo com Silva (2008), a sustentabilidade tem sido tema de discussão da agenda econômica e social de diversos países e Conferências[8]. Sua conceituação, no entanto, revela a disseminação de um conteúdo ideológico, no qual os problemas ambientais e referentes à sustentabilidade são tidos como resultantes de causas externas e alheias ao processo de produção: “[...] seriam decorrentes da ‘extrema rapidez’ pela qual se dá o aumento da população e as calamidades ambientais se agravariam pela pressão das aglomerações humanas [...]” (SILVA, 2008, p. 139). Vê-se, portanto, que a sustentabilidade está associada à necessidade do modo de produção capitalista de garantir as bases para sua expansão. A problematização do discurso da sustentabilidade não passa, por sua vez, pela própria gênese do processo de acumulação: na medida em que a contradição entre capital e trabalho dá origem às expressões da questão social, a questão ambiental também se apresenta em decorrência da dinâmica própria do capital. De acordo com Mota e Silva (2009), a questão ambiental é intrínseca a lógica destrutiva do modo de produção capitalista, cujas crescentes necessidades de produção e acumulação da riqueza, vêm se defrontando com os seus próprios limites de expansão. A questão ambiental na sociedade não tem, no entanto, apenas uma causa natural ou que decorre somente do desenvolvimento das sociedades: sua determinação é além de econômica, uma consequência política, social e cultural.
Segundo Foladori (2001), esta forma ideológica que se apresenta a sustentabilidade é típica da lógica do mercado. A “solução” para os problemas ambientais é condicionada pela privatização dos recursos naturais, pois se trata de uma estratégia que possibilitaria sua proteção mediante a valorização econômica dos recursos não mercantis. Estes argumentos perpassam pela lógica de manutenção da dinâmica capitalista, dado que a questão ambiental é atribuída a fatores externos a produção de mercadorias, sendo a sustentabilidade a “solução” que se apresenta a este quadro pela via da privatização dos próprios recursos naturais.
Desmistificar o conteúdo ideológico que permeia a discussão da sustentabilidade implica precisamente em desvelar a gênese da própria questão ambiental. Compreender a contraditoriedade entre capital e trabalho e afirmar a sustentabilidade enquanto mecanismo estratégico para manutenção do desenvolvimento capitalista se constitui em elemento fundamental para desvelar a lógica de mercado intrínseca ao debate da sustentabilidade. De acordo com Leff (2010), a categoria sustentabilidade deve ser uma forma de repensar a produção e o desenvolvimento do próprio processo econômico, sobretudo, no contexto do imperialismo – fase superior do capitalismo. Significa a construção de uma nova economia baseada em valores que levam em conta a racionalidade ambiental e a reconstrução de um modelo econômico que tenha sua centralidade fundada nas formas de ser do homem no mundo e não apenas no domínio da razão econômico-produtiva. A sustentabilidade exige uma nova forma de se apropriar da natureza; apropriação esta que deve possibilitar a legitimação de novos princípios, valores e direitos que desconstrua a subordinação à lógica da mera racionalidade econômica e recrie novas condições de vida e novos sentidos para a existência humana, pois a “[...] organização da produção, distribuição e consumo pela via do mercado é o mecanismo naturalmente mais antiecológico que pode existir; tanto é assim que deixa ‘naturalmente’ de lado a natureza e os detritos que não têm preço” (FOLADORI, 2001, p. 157).
A lógica imperialista, ao se caracterizar como a fase superior do capitalismo, segundo Lenin (1979), tem como uma de suas premissas a concentração de todas as fontes de matérias-primas e recursos naturais sob o domínio dos monopólios. A partilha do mundo entre as grandes potências internacionais se efetivou a partir do século XIX: após a primeira Guerra Mundial, a Europa se apresentava como potência hegemônica do globo. Lenin[9] (1979) já percebia, nesta época, a existência de uma “[...] luta pela partilha econômica e política do mundo entre as grandes potências, [...] [criando] entre os Estados diversas formas transitórias de dependência” (LENIN, 1979, p. 84, grifo do autor) que implicavam na subordinação dos países dependentes aos dominados: a exploração das matérias-primas e recursos naturais é exemplo desta subordinação. Ávila e Monte-Mór (2011) compartilham destas constatações na medida em que demarcam que, no período pós Guerra Fria, os Estados Unidos assumem o papel de dominação hegemônica do mundo. Se em Lenin a partilha do mundo se materializava sob o controle europeu, o que se verifica no pós Guerra é o deslocamento da hegemonia dos países europeus para os países norte-americanos: os Estados Unidos passam a dominar o processo de partilha do mundo, efetivando-se como o monopolizador de matérias-primas dos países dependentes e subdesenvolvidos.
De acordo Ávila e Monte-Mór (2011), até a década de 1970, os países subdesenvolvidos mantiveram-se na condição de Estados primário-exportadores de matérias-primas e produtos agrícolas. A partir da década de 1970, conforme Löwy (2013), a crise econômica decorrente da crise do modelo de produção fordista/taylorista desencadeou também uma crise ecológica. É importante ressaltar que esta, “[...] Por si mesma, ela não leva ao ‘fim do capitalismo’; por mais que acabe o petróleo, ou que se esgotem outras fontes essenciais da riqueza, o sistema continuará a explorar o planeta, até que a própria vida humana se encontre ameaçada” (LÖWY, 2013, p. 79). O que se pretende demarcar é que a passagem para um modelo de produção toyotista não só resultou na maior expropriação dos recursos do meio ambiente, mas também transformou o ar, a terra, o solo e a água em mercadoria.

As duas crises [econômica e ecológica] são aspectos interligados de uma crise mais geral, a crise da civilização capitalista industrial moderna. Isto é, a crise de um modo de vida – cuja forma caricatural é o famoso american way of life, que, obviamente, só pode existir enquanto for privilégio de uma minoria – de um sistema de produção, consumo, transporte e habitação que é, literalmente, insustentável (LÖWY, 2013, p. 80, grifos do autor).

Deste modo, a partir da década de 1970, pode-se dizer que, os países subdesenvolvidos, além de servirem para sustentar – por meio da exportação de matérias-primas e produtos agrícolas – os países desenvolvidos, passam a se configurar como espaços estratégicos para o deslocamento da questão ambiental: na medida em que, conforme Netto (1996), o toyotismo tem como fundamento a externalização da produção, isto é, a instauração de fábricas nos países periféricos, fragmentando a produção e tornando seus custos mais baratos, verifica-se que a degradação do meio ambiente é também transferida para os continentes subdesenvolvidos. Como bem denota Lenin (1979), a partilha do mundo consolida-se na dominação dos países monopolistas sob os países subdesenvolvidos. Tal dominação, além de se findar no campo econômico, também se instaura na esfera do controle ambiental: é por esse motivo que o desencadeamento de uma crise ecológica se faz acompanhar de uma crise econômica; “A crise econômica e a crise ecológica resultam do mesmo fenômeno” (LÖWY, 2013, p. 79): das contradições do modo de produção capitalista, “[...] que não conhece outro critério que não seja a expansão dos negócios e a acumulação de lucros” (LÖWY, 2013, p. 79-80).
Nesse sentido, a sustentabilidade, apresentando-se sob o discurso de fatores externos a produção, sustenta e oculta à lógica de dominação imperialista ambiental. Afirma-se, portanto, os (des)caminhos da sustentabilidade do meio ambiente na atual dinâmica imperialista.

A questão da ecologia, do meio ambiente, é a questão central do capitalismo; para parafrasear uma observação do filósofo da Escola de Frankfurt Max Horkheimer – “se você não quiser falar do capitalismo, não adianta falar do fascismo” – [...] diria, também: se você não quer falar do capitalismo, não adianta falar do meio ambiente, porque a questão da destruição, da devastação, do envenenamento ambiental é produto do processo de acumulação do capital. Logo, a questão que se coloca é a de uma alternativa, mas de uma alternativa que seja radical (LÖWY, 2013, p. 81).

Seguindo os trilhos de Löwy (2013), mudanças moderadas a exemplo do Tratado de Kyoto – acordo internacional com a finalidade de reduzir a emissão de gases que desencadeiam o efeito estufa – não é capaz de solucionar a crise da sustentabilidade na dinâmica capitalista, pois se trata de uma medida de cunho reformista. Somente repensando a organização da produção é que se torna possível ir à raiz do problema. “Precisamos pensar, portanto, em alternativas radicais, alternativas que coloquem outro horizonte histórico, mas além do capitalismo, mais além das regras da acumulação capitalista e da lógica do lucro e da mercadoria [...] essa alternativa é o ecossocialismo” (LÖWY, 2013, p. 81). Este se configura numa forma de articular a reflexão ecológica e a reflexão socialista. Ao contrário da ecologia capitalista que considera as medidas reformistas como meio para atingir um meio ambiente mais sustentável, o ecossocialismo é uma crítica a este modelo, dado que considera que a plena sustentabilidade ambiental é impossível no modo de produção capitalista. “O eco-socialismo não é só a perspectiva de uma nova civilização, uma civilização da solidariedade – [...] entre os humanos, mas, também, com a natureza –, como, também, uma estratégia de luta, desde já, aqui e agora” (LÖWY, 2013, p. 83).


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante das discussões apresentadas, nota-se que frente ao desenvolvimento do capitalismo – percorrendo suas fases comercial, concorrencial e imperialista – este aprofundou a lógica destrutiva da natureza intrínseca a sua própria dinâmica. Para garantir a acumulação privada de riqueza, o capital ao mesmo tempo em que expropria os recursos naturais, deve formular estratégias reformistas para garantir condições necessárias para a viabilidade de sua exploração. É neste contexto que a sustentabilidade se apresenta sob o discurso de preservar a natureza, mistificando a real determinação da questão ambiental, qual seja: a contradição entre capital e trabalho.
Como alternativa a esta barbárie destrutiva, o ecossocialismo se apresenta como possibilidade de instaurar uma ordem social comprometida e compromissada com o desenvolvimento de um meio ambiente saudável e sustentável. Por representar uma alternativa radical à dinâmica capitalista, a reflexão ecossocialista leva em conta a reflexão marxista. Somente pela apropriação do pensamento e da tradição marxista é que se torna possível compreender a lógica pela qual se orienta o ecossocialismo: consiste numa maneira de promover uma transformação das relações de produção e, sobretudo, da estrutura e organização da produção. É uma alternativa que estabelece como horizonte a construção de uma nova ordem social que tem a potencialidade de socializar a riqueza socialmente produzida e limitar a barbárie capitalista.


REFERÊNCIAS

ÁVILA, João Luís Teixeira; MONTE-MÓR, Roberto Luís de Melo. Subdesenvolvimento sustentável? Velhas e novas contradições na periferia do capitalismo. Revista de Economia Política, vol. 31, nº 3 (123), p. 381-396, jul./set., 2011.

BATISTA, Alfredo. Processo de trabalho: da manufatura à maquinaria moderna. Revista Serviço Social e Sociedade, São Paulo, n. 118, p. 209-238, abr./jun., 2014.

FOLADORI, Guillermo. Limites do desenvolvimento sustentável. São Paulo: Unicamp, 2001.

HUBERMAN, Leo. História da riqueza do homem. 19. ed. Tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar, 1986.

IANNI, Octavio (Org.) Marx: sociologia. Florestan Fernandes (Coord.). 8º ed. São Paulo: Editora Ática, 1996.

LEFF, Enrique. Discursos sustentáveis. Tradução Silvana Cobucci Leite. São Paulo: Cortez, 2010.

LENIN, Vladimir. Imperialismo: fase superior do capitalismo. São Paulo: Global Editora, 1979.

LÖWY, Michel. Crise ecológica, crise capitalista, crise de civilização: a alternativa ecossocialista. Caderno CRH, Salvador, v. 26, jan./abr., 2013, p. 79-86.

MARX, Karl. A assim chamada acumulação primitiva. In: MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I, Seção VII, Cap. XXIV, p. 339-381, São Paulo: Os Economistas, 1996.

MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. Tradução e Introdução de Florestan Fernandes. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2008.
MARX, Karl. Processo de trabalho e processo de valorização. In: MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I, Seção III, Cap. V, p. 255-263. São Paulo: Boitempo, 2013.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do partido comunista. São Paulo: Editora Escala, 2009.

MOTA, Ana Elizabete; SILVA, Maria das Graças. A questão ambiental e o contraditório discurso da sustentabilidade. Revista Praia Vermelha, Rio de Janeiro: UFRJ, v. 19, p. 37-50, 2009.

NETTO, José Paulo. Transformações societárias e serviço social: notas para uma análise prospectiva da profissão no Brasil. In: Revista Serviço Social e Sociedade, nº 50, abril, 1996, p. 87-132.

NETTO; José Paulo; BRAZ, Marcelo. Economia política: uma introdução crítica. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2008.

SALAMA, Pierre; VALIER, Jacques. Uma introdução à economia política. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975.

SILVA, Maria das Graças. Capitalismo contemporâneo e “questão ambiental”: o desenvolvimento sustentável e a ação do serviço social. Tese de Doutorado – Universidade Federal de Pernambuco, UFPE, Recife, 2008.




[1] Alícia Beatriz Mallmann Piccinin, acadêmica do 4º ano do curso de Serviço Social na Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE – campus de Toledo, alicia.mallmann@gmail.com. 
[2] Mirele Hashimoto Siqueira, acadêmica do 4º ano do curso de Serviço Social na Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE – campus de Toledo, mirelehashimoto@hotmail.com.
[3] O trabalho é, antes de tudo, um processo entre o homem e a natureza, processo este em que o homem, por sua própria ação, medeia, regula e controla seu metabolismo com a natureza. Ele se confronta com a matéria natural como comum a potência natural [...] a fim de se apropriar da matéria natural de uma forma útil para sua própria vida, ele põe em movimento as forças naturais pertencentes a sua corporeidade: seus braços e pernas, cabeça e mãos. Agindo sobre a natureza externa e modificando-a por meio desse movimento, ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza. Ele desenvolve as potências que nela jazem latentes e submete o jogo de suas forças a seu próprio domínio (MARX, 2013, p. 255).
[4] Apesar da concorrência entre os grandes, médios e pequenos capitalistas, é natural que “[...] os grandes capitalistas [...] [tivessem] maiores chances de levar a melhor na luta que todos travavam entre si” (NETTO; BRAZ, 2008, p. 177).
[5] “Empreendimentos que envolvem uma elevada composição orgânica do capital tornam-se cada vez mais excludentes do conjunto dos capitalistas: apenas aqueles que possuem grandes massas de capital podem implementá-los. Eis por que a tendência do capital, em seu movimento, é de concentrar-se: cada vez mais capital é necessário para produzir mais mais-valia. Essa tendência de concentração do capital faz com que os grandes capitalistas acumulem uma massa de capital cada vez maior” (NETTO; BRAZ, 2008, p. 130, grifos do autor).
[6] A centralização “[...] não implica um aumento de capital em função de uma nova acumulação, mas tão-somente o aumento de capital pela fusão de vários outros. A centralização do capital realiza-se pela união (mediante cartéis, trustes e a formação de holdings) de capitais já existentes” (NETTO; BRAZ, 2008, p. 130-131, grifos do autor).
[7] Analisar os traços fundamentais do imperialismo é imprescindível para compreender o atual estágio do capitalismo. No entanto, devido aos próprios limites e objetivos desta sistematização de ideias, o presente artigo se centrará em analisar apenas os impactos da partilha do mundo entre as grandes potências internacionais no meio ambiente.
[8] Exemplo emblemático é o debate do Clube de Roma que culminou na Conferência das Nações Unidas sobre o Homem e o Meio Ambiente, realizada em Estocolmo, em 1972. “Este evento, que marcou o ambientalismo mundial, foi convocado em razão da necessidade de discutir temas ambientais que poderiam gerar conflitos internacionais, a exemplo da poluição da água, do ar e do solo” (SILVA, 2008. p. 139).
[9] Lenin contribui de maneira significativa para analisar os traços da lógica imperialista. Porém, considera apenas a partilha do mundo sob a hegemonia europeia por não vivenciar o período subsequente (pós Guerra Fria) e participar do momento de hegemonia norte-americana.

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