A
(IN)SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL NO CONTEXTO
DA LÓGICA IMPERIALISTA
Alícia Mallmann[1]
Mirele Hashimoto[2]
INTRODUÇÃO
Este artigo é fruto de indagações oriundas a partir da disciplina
optativa de Núcleo Temático “Meio Ambiente, Desenvolvimento Sustentável e
Educação Ambiental: Conflitos Socioambientais, direitos e Serviço Social” do
curso de Serviço Social da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE
–, campus de Toledo, ministrada pela
docente Dra. Marli Renate Von Borstel Roesler.
Trata-se de um artigo fundamentado em pesquisa bibliográfica acerca do
tema sustentabilidade com o objetivo de compreender os reflexos do atual
estágio do desenvolvimento capitalista (imperialismo) na sustentabilidade
ambiental. Para tanto, a presente sistematização de ideias está divida em dois
pontos:
O primeiro tratará de uma breve contextualização do desenvolvimento do
capitalismo ao longo de seu percurso histórico: resgatando a fase comercial ou
mercantil e, em seguida, a fase concorrencial procura-se fornecer elementos
para apreensão das bases que desencadearam no capitalismo imperialista.
O segundo ponto, por sua vez, centrará em analisar a categoria
sustentabilidade e, por conseguinte, a questão ambiental na perspectiva de
compreender o conteúdo ideológico que se oculta por de trás desta categoria.
Revelar sua problematização significa evidenciar a relação que mantém com os
processos produtivos e econômicos da ordem capitalista: é esta relação
ineliminável entre (in)sustentabilidade e modo de produção de capitalista que
permite estabelecer um ponto de congruência entre exploração ambiental
imperialista e os (des)caminhos da sustentabilidade no planeta. Superar esta
lógica implica suprimir a forma de sociabilidade do capital que, por si mesma,
é antiecológica e destrutiva: a construção do ecosocialismo não é senão a
alternativa que se apresenta para dilaceração burguesa.
1 O IMPERIALISMO: UMA CONSTRUÇÃO HISTÓRICA
DO GRANDE CAPITAL
Compreender o imperialismo enquanto construção histórica do grande
capital implica em partir do pressuposto de que, segundo Ianni (1996), a
história humana é eminentemente um processo de bases materiais e objetivas: sua
construção está condicionada a ação coletiva do conjunto de homens da
sociedade, os quais se colocam na história por meio de seu intercâmbio natural
e eterno com a natureza[3].
Conforme Netto e Braz (2008), o capital é uma relação social. Como tal
é constituído por uma relação dialética passível de mutações e transformações. “[...]
capital é movimento, dinamizado pelas
suas contradições [...]; o
capitalismo não só é história, mas tem própria
história [...]” (NETTO; BRAZ, 2008, p. 169, grifos do autor): a partir de transformações
desencadeadas ainda no interior das antigas relações feudais, o capitalismo engendrou
condições propícias para a instauração de uma nova ordem social subordinada aos
seus próprios interesses.
Por constituir-se numa incessante dinâmica de mobilidade e
transformação, de acordo com Netto e Braz (2008), o capitalismo alterou-se ao
longo de seu desenvolvimento econômico. Como bem demarca Marx (2008), este
processo de desenvolvimento é condicionado pelo nível de complexidade adquirida
pelas forças produtivas: são elas que indicam o maior ou menor grau de promoção
das forças comerciais e de consumo numa determinada sociedade. Nesse sentido,
três estágios de desenvolvimento são verificados no processo de gradação do
modo de produção capitalista, quais sejam:
1) O
capitalismo comercial ou mercantil. Caracteriza-se pela fase inicial do
capitalismo, emergindo a partir do século XVI e permanecendo até meados do
século XVIII. Ainda no interior do modo de produção feudal, a figura do artesão
representava as relações sob quais se assentavam o processo de trabalho.
Segundo Batista (2014), este período é caracterizado pelo domínio do
trabalhador artesão de todos os elementos que compõe o processo de trabalho:
controlava diretamente a extração da matéria-prima, os instrumentos de trabalho
e o produto final no interior dos ofícios. Criava-se, portanto, uma
[...] unidade entre o pensar e o fazer do artesão
[...]. [Sua] autonomia [...] em todo o processo de trabalho, abria a
possibilidade de os seres sociais exercitarem o campo da liberdade em
diferentes sentidos (a liberdade de escolha ampliava o grau de reflexo em suas
ações cotidianas, possibilitando avançarem em direção ao ser genérico)
(BASTISTA, 2014, p. 216).
Conforme Batista
(2014), o artesanato autônomo viu-se em declínio na medida em que os burgueses
comerciantes em ascensão, ainda no interior da sociedade feudal, passaram a
ganhar força e prevalecer sobre a nova conjuntura que se instaurava. Os
artesãos que antes dominavam todo o processo de trabalho nos ofícios
encontravam-se agora ceifados da autonomia de decidir sobre o que, como e para
quem produzir: sua “[...] vontade foi comprada pelo proprietário capitalista em
processo de formação industrial em grande escala” (BATISTA, 2014, p. 218), além
de passar a desenvolver apenas uma parcela do processo de trabalho. Este
processo é caracterizado pela chamada acumulação primitiva que “[...] é,
portanto, nada mais que o processo histórico de separação entre produtor e meio
de produção. Ele aparece como ‘primitivo’ porque constitui a pré-história do
capital e do modo de produção que lhe corresponde” (MARX, 1996, p. 340).
2) O
capitalismo concorrencial. De acordo com Netto e Braz (2008), predomina desde a
oitava década do século XVIII até o último terço do século XIX. O capitalismo
concorrencial consolidou-se enquanto regime global de acumulação do capital a
partir da Revolução Francesa em 1789: a burguesia, empunhando a luta pela
“Liberdade, Igualdade e Fraternidade” e unindo-se ao Terceiro Estado –
trabalhadores – promoveu uma revolução nas bases materiais da sociedade,
derrubando os antigos pilares da organização feudal, isto é, a clero e a
nobreza. Segundo Huberman (1985), após conquistar o poder político e econômico,
a burguesia voltou-se contra aqueles que a auxiliaram a chegar ao poder: excluíram
os trabalhadores dos avanços conquistados com a Revolução e instauraram uma
ordem fundada na exploração do trabalho pelo capital.
Conforme Netto e Braz (2008), este estágio do
desenvolvimento capitalista caracteriza-se pelo intenso processo de
urbanização, pela consolidação da grande indústria e pela criação do mercado
mundial: os países desenvolvidos passam a explorar as matérias-primas de outros
países do mundo e passam a disseminar suas mercadorias produzidas em grande
escala. Tais mercadorias invadem a área comercial de diversos povos, nações e
Estados, operando uma integração hegemônica do modo de produção capitalista em
nível global. Esta fase caracteriza-se ainda pela diferenciação da classe
capitalista em relação ao volume de capital concentrado em suas mãos: a
existência de grandes, médios e pequenos capitalistas era o que proporcionava a
consolidação de uma concorrência sem limites e desenfreada entre eles[4] no
marco do capitalismo concorrencial.
3) O
imperialismo. Ascende nas três últimas décadas do século XIX e permanece até os
dias atuais. Conforme Netto e Braz (2008), o ingresso no estágio imperialista
do capitalismo está associado a três processos: 1) a segunda Revolução
Industrial. Desenvolve-se como um mecanismo de caráter técnico científico que
viabiliza profundas mudanças na operacionalização das forças produtivas. Ao
incorporar os avanços da indústria química, da eletricidade – que emerge em
1881 –, do petróleo e do aço, engendra transformações que impactaram no
estabelecimento de uma industrialização pesada. 2) surgimento dos monopólios.
Se na fase concorrencial do capitalismo a concorrência caracterizava-se por
seus limites desenfreados, o que se observa no presente estágio é uma
modificação estrutural: a concentração[5] e
centralização[6]
do capital provocou a formação de grandes monopólios na medida em que “Um
elevado número de pequenas empresas é derrotado na concorrência por um número
restrito de grandes empresas, que controlam uma fração crescente do capital,
dos trabalhadores e da produção” (SALAMA; VALIER, 1975, p. 62-63). Esta
tendência à monopolização do capital, conforme Netto e Braz (2008), passa a se
expandir para além das fronteias nacionais, incidindo sob as demais regiões do
globo. 3) mudança do papel dos bancos. Na fase capitalista precedente ao
imperialismo, os bancos reduziam-se a intermediários de pagamentos:
acompanhando o processo de concentração e centralização do capital, os bancos
no estágio imperialista tornaram-se um sistema de crédito; “[...] transformaram
o capital-dinheiro em capital ativo, isto é, criador de lucro, e, reunindo os
diversos rendimentos em espécie, eles colocam-nos à disposição da classe dos
capitalistas” (LENIN, 1979, p. 30). Este movimento permitiu fazer com que os
bancos detivessem, por meio da compra de ações, parte dos monopólios
industriais: a fusão entre monopólios industriais e bancos resultaram-se
precisamente no capital financeiro.
Lenin (1979) aponta cinco traços fundamentais do
capitalismo imperialista: 1) a concentração do capital traduzido por meio dos
monopólios; 2) o capital financeiro; 3) a exportação de capitais, 4) a partilha
do mundo entre os grupos capitalistas nacionais e; 5) a partilha do mundo entre
as grandes potências internacionais[7].
Analisar estes traços fundamentais do imperialismo, em particular, a partilha
do mundo entre as grandes potências internacionais coloca-se como elemento
indispensável para compreender os principais impactos do atual estágio da
dinâmica capitalista em relação à sustentabilidade do meio ambiente. Explicitar
esta relação é, pois, objetivo que se propõe investigar no próximo ponto.
2 OS (DES)CAMINHOS DA
SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL NO CENÁRIO IMPERIALISTA
Compreender os impactos
da lógica imperialista no meio ambiente requer, de início, conceituar a
categoria sustentabilidade. De acordo com Silva (2008), a sustentabilidade tem
sido tema de discussão da agenda econômica e social de diversos países e
Conferências[8].
Sua conceituação, no entanto, revela a disseminação de um conteúdo ideológico,
no qual os problemas ambientais e referentes à sustentabilidade são tidos como
resultantes de causas externas e alheias ao processo de produção: “[...] seriam
decorrentes da ‘extrema rapidez’ pela qual se dá o aumento da população e as
calamidades ambientais se agravariam pela pressão das aglomerações humanas
[...]” (SILVA, 2008, p. 139). Vê-se, portanto, que a sustentabilidade está
associada à necessidade do modo de produção capitalista de garantir as bases
para sua expansão. A problematização do discurso da sustentabilidade não passa,
por sua vez, pela própria gênese do processo de acumulação: na medida em que a
contradição entre capital e trabalho dá origem às expressões da questão social,
a questão ambiental também se apresenta em decorrência da dinâmica própria do
capital. De acordo com Mota e Silva (2009), a questão ambiental é intrínseca a
lógica destrutiva do modo de produção capitalista, cujas crescentes necessidades
de produção e acumulação da riqueza, vêm se defrontando com os seus próprios
limites de expansão. A questão ambiental na sociedade não tem, no entanto,
apenas uma causa natural ou que decorre somente do desenvolvimento das
sociedades: sua determinação é além de econômica, uma consequência política,
social e cultural.
Segundo Foladori
(2001), esta forma ideológica que se apresenta a sustentabilidade é típica da
lógica do mercado. A “solução” para os problemas ambientais é condicionada pela
privatização dos recursos naturais, pois se trata de uma estratégia que
possibilitaria sua proteção mediante a valorização econômica dos recursos não
mercantis. Estes argumentos perpassam pela lógica de manutenção da dinâmica
capitalista, dado que a questão ambiental é atribuída a fatores externos a
produção de mercadorias, sendo a sustentabilidade a “solução” que se apresenta
a este quadro pela via da privatização dos próprios recursos naturais.
Desmistificar o conteúdo ideológico que permeia a discussão da
sustentabilidade implica precisamente em desvelar a gênese da própria questão
ambiental. Compreender a contraditoriedade entre capital e trabalho e afirmar a
sustentabilidade enquanto mecanismo estratégico para manutenção do
desenvolvimento capitalista se constitui em elemento fundamental para desvelar
a lógica de mercado intrínseca ao debate da sustentabilidade. De acordo com
Leff (2010), a categoria sustentabilidade deve ser uma forma de repensar a
produção e o desenvolvimento do próprio processo econômico, sobretudo, no
contexto do imperialismo – fase superior do capitalismo. Significa a construção
de uma nova economia baseada em valores que levam em conta a racionalidade
ambiental e a reconstrução de um modelo econômico que tenha sua centralidade
fundada nas formas de ser do homem no mundo e não apenas no domínio da razão
econômico-produtiva. A sustentabilidade exige uma nova forma de se apropriar da
natureza; apropriação esta que deve possibilitar a legitimação de novos
princípios, valores e direitos que desconstrua a subordinação à lógica da mera
racionalidade econômica e recrie novas condições de vida e novos sentidos para
a existência humana, pois a “[...] organização da produção, distribuição e
consumo pela via do mercado é o mecanismo naturalmente mais antiecológico que
pode existir; tanto é assim que deixa ‘naturalmente’ de lado a natureza e os
detritos que não têm preço” (FOLADORI, 2001, p. 157).
A lógica imperialista, ao se caracterizar como a fase superior do
capitalismo, segundo Lenin (1979), tem como uma de suas premissas a
concentração de todas as fontes de matérias-primas e recursos naturais sob o
domínio dos monopólios. A partilha do mundo entre as grandes potências
internacionais se efetivou a partir do século XIX: após a primeira Guerra
Mundial, a Europa se apresentava como potência hegemônica do globo. Lenin[9]
(1979) já percebia, nesta época, a existência de uma “[...] luta pela partilha
econômica e política do mundo entre as grandes potências, [...] [criando] entre
os Estados diversas formas transitórias de
dependência” (LENIN, 1979, p. 84, grifo do autor) que implicavam na
subordinação dos países dependentes aos dominados: a exploração das
matérias-primas e recursos naturais é exemplo desta subordinação. Ávila e
Monte-Mór (2011) compartilham destas constatações na medida em que demarcam
que, no período pós Guerra Fria, os Estados Unidos assumem o papel de dominação
hegemônica do mundo. Se em Lenin a partilha do mundo se materializava sob o
controle europeu, o que se verifica no pós Guerra é o deslocamento da hegemonia
dos países europeus para os países norte-americanos: os Estados Unidos passam a
dominar o processo de partilha do mundo, efetivando-se como o monopolizador de
matérias-primas dos países dependentes e subdesenvolvidos.
De acordo Ávila e Monte-Mór (2011), até a década de 1970, os países
subdesenvolvidos mantiveram-se na condição de Estados primário-exportadores de
matérias-primas e produtos agrícolas. A partir da década de 1970, conforme Löwy
(2013), a crise econômica decorrente da crise do modelo de produção
fordista/taylorista desencadeou também uma crise ecológica. É importante
ressaltar que esta, “[...] Por si mesma, ela não leva ao ‘fim do capitalismo’;
por mais que acabe o petróleo, ou que se esgotem outras fontes essenciais da
riqueza, o sistema continuará a explorar o planeta, até que a própria vida humana
se encontre ameaçada” (LÖWY, 2013, p. 79). O que se pretende demarcar é que a
passagem para um modelo de produção toyotista não só resultou na maior
expropriação dos recursos do meio ambiente, mas também transformou o ar, a
terra, o solo e a água em mercadoria.
As duas crises [econômica
e ecológica] são aspectos interligados de uma crise mais geral, a crise da
civilização capitalista industrial moderna. Isto é, a crise de um modo
de vida – cuja forma caricatural é o famoso american way of life,
que, obviamente, só pode existir enquanto for privilégio de uma minoria – de um
sistema de produção, consumo, transporte e habitação que é, literalmente, insustentável
(LÖWY, 2013, p. 80, grifos do
autor).
Deste modo, a partir da
década de 1970, pode-se dizer que, os países subdesenvolvidos, além de servirem
para sustentar – por meio da exportação de matérias-primas e produtos agrícolas
– os países desenvolvidos, passam a se configurar como espaços estratégicos
para o deslocamento da questão ambiental: na medida em que, conforme Netto
(1996), o toyotismo tem como fundamento a externalização da produção, isto é, a
instauração de fábricas nos países periféricos, fragmentando a produção e
tornando seus custos mais baratos, verifica-se que a degradação do meio
ambiente é também transferida para os continentes subdesenvolvidos. Como bem
denota Lenin (1979), a partilha do mundo consolida-se na dominação dos países monopolistas
sob os países subdesenvolvidos. Tal dominação, além de se findar no campo
econômico, também se instaura na esfera do controle ambiental: é por esse
motivo que o desencadeamento de uma crise ecológica se faz acompanhar de uma
crise econômica; “A crise econômica e a crise ecológica resultam do mesmo
fenômeno” (LÖWY, 2013, p. 79): das contradições do modo de produção
capitalista, “[...] que não conhece outro critério que não seja a expansão dos
negócios e a acumulação de lucros” (LÖWY, 2013, p. 79-80).
Nesse sentido, a sustentabilidade, apresentando-se sob o discurso de
fatores externos a produção, sustenta e oculta à lógica de dominação
imperialista ambiental. Afirma-se, portanto, os (des)caminhos da
sustentabilidade do meio ambiente na atual dinâmica imperialista.
A questão da ecologia,
do meio ambiente, é a questão central do capitalismo; para parafrasear uma
observação do filósofo da Escola de Frankfurt Max Horkheimer – “se você não
quiser falar do capitalismo, não adianta falar do fascismo” – [...] diria,
também: se você não quer falar do capitalismo, não adianta falar do meio
ambiente, porque a questão da destruição, da devastação, do envenenamento
ambiental é produto do processo de acumulação do capital. Logo, a questão que
se coloca é a de uma alternativa, mas de uma alternativa que seja radical
(LÖWY, 2013, p. 81).
Seguindo os trilhos de Löwy (2013), mudanças moderadas a exemplo do
Tratado de Kyoto – acordo internacional com a finalidade de reduzir a emissão
de gases que desencadeiam o efeito estufa – não é capaz de solucionar a crise
da sustentabilidade na dinâmica capitalista, pois se trata de uma medida de
cunho reformista. Somente repensando a organização da produção é que se torna
possível ir à raiz do problema. “Precisamos pensar, portanto, em alternativas
radicais, alternativas que coloquem outro horizonte histórico, mas além do
capitalismo, mais além das regras da acumulação capitalista e da lógica do
lucro e da mercadoria [...] essa alternativa é o ecossocialismo” (LÖWY, 2013,
p. 81). Este se configura numa forma de articular a reflexão ecológica e a
reflexão socialista. Ao contrário da ecologia capitalista que considera as
medidas reformistas como meio para atingir um meio ambiente mais sustentável, o
ecossocialismo é uma crítica a este modelo, dado que considera que a plena
sustentabilidade ambiental é impossível no modo de produção capitalista. “O
eco-socialismo não é só a perspectiva de uma nova civilização, uma civilização
da solidariedade – [...] entre os humanos, mas, também, com a natureza –, como,
também, uma estratégia de luta, desde já, aqui e agora” (LÖWY, 2013, p. 83).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante das discussões apresentadas, nota-se que frente ao
desenvolvimento do capitalismo – percorrendo suas fases comercial,
concorrencial e imperialista – este aprofundou a lógica destrutiva da natureza
intrínseca a sua própria dinâmica. Para garantir a acumulação privada de
riqueza, o capital ao mesmo tempo em que expropria os recursos naturais, deve
formular estratégias reformistas para garantir condições necessárias para a
viabilidade de sua exploração. É neste contexto que a sustentabilidade se
apresenta sob o discurso de preservar a natureza, mistificando a real
determinação da questão ambiental, qual seja: a contradição entre capital e
trabalho.
Como alternativa a esta barbárie destrutiva, o ecossocialismo se
apresenta como possibilidade de instaurar uma ordem social comprometida e
compromissada com o desenvolvimento de um meio ambiente saudável e sustentável.
Por representar uma alternativa radical à dinâmica capitalista, a reflexão
ecossocialista leva em conta a reflexão marxista. Somente pela apropriação do
pensamento e da tradição marxista é que se torna possível compreender a lógica
pela qual se orienta o ecossocialismo: consiste numa maneira de promover uma
transformação das relações de produção e, sobretudo, da estrutura e organização
da produção. É uma alternativa que estabelece como horizonte a construção de
uma nova ordem social que tem a potencialidade de socializar a riqueza
socialmente produzida e limitar a barbárie capitalista.
REFERÊNCIAS
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contradições na periferia do capitalismo. Revista de Economia Política, vol. 31, nº 3 (123), p. 381-396, jul./set.,
2011.
BATISTA, Alfredo. Processo de trabalho: da manufatura à maquinaria moderna. Revista
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FOLADORI, Guillermo. Limites do desenvolvimento sustentável. São Paulo: Unicamp, 2001.
HUBERMAN, Leo. História da
riqueza do homem. 19. ed. Tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro:
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IANNI, Octavio (Org.) Marx: sociologia. Florestan Fernandes (Coord.). 8º ed. São Paulo:
Editora Ática, 1996.
LEFF, Enrique. Discursos sustentáveis. Tradução Silvana Cobucci Leite. São Paulo:
Cortez, 2010.
LENIN, Vladimir. Imperialismo: fase superior do capitalismo. São Paulo: Global
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LÖWY, Michel. Crise ecológica, crise capitalista, crise de civilização:
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MARX, Karl. A assim chamada acumulação primitiva. In: MARX, Karl. O Capital:
crítica da economia política. Livro I, Seção VII, Cap. XXIV, p. 339-381, São
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MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do partido comunista. São
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MOTA, Ana Elizabete; SILVA, Maria das
Graças. A questão ambiental e o
contraditório discurso da sustentabilidade. Revista Praia Vermelha, Rio de
Janeiro: UFRJ, v. 19, p. 37-50, 2009.
NETTO,
José Paulo. Transformações societárias e
serviço social: notas para uma análise prospectiva da profissão no Brasil.
In: Revista Serviço Social e Sociedade, nº 50, abril, 1996, p. 87-132.
NETTO; José Paulo; BRAZ, Marcelo. Economia política: uma introdução
crítica. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2008.
SALAMA, Pierre; VALIER, Jacques. Uma introdução à economia política. Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975.
SILVA, Maria das Graças. Capitalismo contemporâneo e “questão
ambiental”: o desenvolvimento sustentável e a ação do serviço social. Tese
de Doutorado – Universidade Federal de Pernambuco, UFPE, Recife, 2008.
[1]
Alícia Beatriz Mallmann Piccinin,
acadêmica do 4º ano do curso de Serviço Social na
Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE – campus de Toledo,
alicia.mallmann@gmail.com.
[2]
Mirele Hashimoto Siqueira, acadêmica
do 4º ano do curso de Serviço Social na Universidade Estadual do Oeste
do Paraná – UNIOESTE – campus de Toledo, mirelehashimoto@hotmail.com.
[3] O trabalho é, antes de tudo, um processo entre o
homem e a natureza, processo este em que o homem, por sua própria ação, medeia,
regula e controla seu metabolismo com a natureza. Ele se confronta com a
matéria natural como comum a potência natural [...] a fim de se apropriar da matéria natural de uma
forma útil para sua própria vida, ele põe em movimento as forças naturais
pertencentes a sua corporeidade: seus braços e pernas, cabeça e mãos. Agindo
sobre a natureza externa e modificando-a por meio desse movimento, ele
modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza. Ele desenvolve as potências que
nela jazem latentes e submete o jogo de suas forças a seu próprio domínio
(MARX, 2013, p. 255).
[4]
Apesar da concorrência entre os grandes, médios e pequenos capitalistas, é
natural que “[...] os grandes capitalistas [...] [tivessem] maiores chances de
levar a melhor na luta que todos travavam entre si” (NETTO; BRAZ, 2008, p. 177).
[5]
“Empreendimentos que envolvem uma elevada composição orgânica do capital
tornam-se cada vez mais excludentes do conjunto dos capitalistas: apenas
aqueles que possuem grandes massas de capital podem implementá-los. Eis por que
a tendência do capital, em seu movimento, é de concentrar-se: cada vez mais capital é necessário para produzir
mais mais-valia. Essa tendência de concentração
do capital faz com que os grandes
capitalistas acumulem uma massa de capital cada vez maior” (NETTO; BRAZ, 2008,
p. 130, grifos do autor).
[6]
A centralização “[...] não implica um aumento de capital em função de uma nova
acumulação, mas tão-somente o aumento de capital pela fusão de vários outros. A
centralização do capital realiza-se
pela união (mediante cartéis, trustes e
a formação de holdings) de capitais já
existentes” (NETTO; BRAZ, 2008, p. 130-131, grifos do autor).
[7]
Analisar os traços fundamentais do imperialismo é imprescindível para
compreender o atual estágio do capitalismo. No entanto, devido aos próprios limites
e objetivos desta sistematização de ideias, o presente artigo se centrará em
analisar apenas os impactos da partilha do mundo entre as grandes potências
internacionais no meio ambiente.
[8]
Exemplo emblemático é o debate do Clube de Roma que culminou na Conferência das
Nações Unidas sobre o Homem e o Meio Ambiente, realizada em Estocolmo, em 1972.
“Este evento, que marcou o ambientalismo mundial, foi convocado em razão da
necessidade de discutir temas ambientais que poderiam gerar conflitos
internacionais, a exemplo da poluição da água, do ar e do solo” (SILVA, 2008.
p. 139).
[9]
Lenin contribui de maneira significativa para analisar os traços da lógica
imperialista. Porém, considera apenas a partilha do mundo sob a hegemonia
europeia por não vivenciar o período subsequente (pós Guerra Fria) e participar
do momento de hegemonia norte-americana.
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