segunda-feira, 21 de novembro de 2016

PRÁXIS PROFISSIONAL: DIMENSÕES TEÓRICO-METODOLÓGICA, ÉTICO-POLÍTICA E TÉCNICO-OPERATIVA DO EXERCÍCIO PROFISSIONAL DO ASSISTENTE SOCIAL

Alícia Mallmann[1]
Mirele Hashimoto[2]

INTRODUÇÃO
         Este artigo é fruto de indagações advindas a partir dos conteúdos ministrados na disciplina de Práxis Profissional II do curso de Serviço Social da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE –, campus de Toledo, pela docente Ms. Ester Taube Toretta.
      Tendo como objetivo desenvolver uma reflexão acerca das dimensões teórico-metodológica, ético-política e teórico-operativa busca-se, neste artigo, compreendê-las a partir de sua intrínseca relação no fazer e na práxis profissional do Assistente Social. Para tanto, conceituar a práxis enquanto atividade racional e consciente, própria da natureza humana, coloca-se como questão central a ser desenvolvida no primeiro capítulo. É a partir de sua compreensão que se torna possível apreender os elementos determinantes para a realização e a objetivação da práxis profissional no cotidiano. Com base em tais conceituações, buscar-se-á, no segundo capítulo, caracterizar as três dimensões inerentes à profissão com o intuito de potencializá-las e viabilizá-las enquanto elementos constitutivos e constituintes da práxis profissional na atuação do Assistente Social. Procura-se ainda ressaltar a unicidade orgânica existente entre as três dimensões na medida em que se constituem enquanto totalidade do exercício profissional. Compreender tal unicidade e, ao mesmo tempo, desvendar suas particularidades corresponde, portanto, no desafio central que esta sistematização de ideias se propõe a desenvolver.

1.                  PRÁXIS
           Compreender a práxis enquanto atividade teórico-prática requer sinalizar as distintas acepções existentes entre atividade e a própria práxis. De acordo com Vázquez (1977), a atividade, de modo geral, consiste na transformação da matéria-prima por um sujeito determinado através da operacionalização de um conjunto de atos. Na atividade, a matéria prima modificada pode ser um “[...] corpo físico, ser vivo, vivência psíquica, grupo, relação ou instituição social” (VÁZQUEZ, 1977, p. 186), enquanto o sujeito transformador tem a possibilidade de assumir a forma de um “[...] tipo de agente físico, biológico e humano” (VÁZQUEZ, 1977, p. 186). Sua determinação assenta-se na esfera da efetividade e da ação concreta, isto é: a atividade não pode existir apenas em termos potenciais e na disponibilidade para se atuar sob determinada matéria-prima. Sua objetivação é concreta e seu resultado é sempre um produto: necessariamente a matéria-prima transformada pelo agente.
      A práxis, segundo Vázquez (1977), embora também se caracterize por tal transformação, diferencia-se da atividade em geral na medida em que traz consigo um caráter consciente que é próprio da atividade humana. Este caráter se traduz por meio da transferência de finalidades – projetadas pelo homem – ao resultado real que se pretende alcançar. A modificação da matéria-prima pelo agente se inicia por um resultado ideal, isto é, por uma finalidade projetada idealmente na cabeça do homem. Seu resultado final será um produto real: este é sempre determinado por sua capacidade teleológica[3]. É essa mesma capacidade que determina e direciona as ações do homem para se alcançar o resultado concreto projetado. Pode-se dizer, portanto, que as determinações na materialização do produto real – projetado idealmente – não vêm do passado, mas sim do futuro. “Chega-se a um resultado que já estava presente na representação do trabalhador no início do processo, portanto, um resultado que já existia idealmente” (MARX, 2013, p. 256).
Essa atividade implica na intervenção da consciência, graças à qual o resultado existe duas vêzes – e em tempos diferentes –: como resultado ideal e como produto real. [...] Em virtude dessa antecipação do resultado que se deseja obter, a atividade propriamente humana tem um caráter consciente (VÁZQUEZ, 1977, p. 187).
             Isso não significa dizer que, segundo Vázquez (1977), o resultado real se objetivará conforme a projeção antecipada idealmente. Neste processo, as distintas casualidades podem implicar na necessidade de adequar intencionalmente o primeiro em relação ao segundo. O produto real materializado pode, em muitos casos, se distanciar do resultado ideal. Esta afirmação, no entanto, não descaracteriza a práxis enquanto atividade: toda práxis é atividade pelo fato de transformar a matéria-prima; mas nem toda atividade é práxis por não exigir, necessariamente, a projeção ideal de finalidades sob o objeto.
         Considerando tais elementos, podem-se apontar duas conclusões principais: 1) a práxis não pode existir enquanto atividade puramente subjetiva e psíquica. Demanda ação real e objetiva sob determinada realidade. É, portanto, ação prática objetivada; 2) embora a atividade teórica, como um conjunto de ideologias e conhecimentos, não se caracterize como práxis, dado que não transforma – por si só – determinada realidade, não pode ser excluída de sua relação com prática. “A práxis se nos apresenta como uma atividade material, transformadora e ajustada a objetivos. Fora dela, fica a atividade teórica que não se materializa, na medida em que é atividade espiritual pura” (VÁZQUEZ, 1977, p. 208).  É na sua relação, no entanto, que teoria e prática se apresentam como unidade indissociável[4]: a práxis não se realiza sem a adequação de finalidades projetadas idealmente que é própria da atividade teórica. Nesse sentido, tais considerações devem ser levadas em conta para se compreender a própria práxis profissional no exercício do trabalho do Assistente Social.

1.1              PRÁXIS PROFISSIONAL

           A práxis profissional, ao incorporar os elementos já elencados da própria práxis, deve ser o mecanismo que norteia o exercício profissional do Assistente Social no desvelamento das demandas sociais. De acordo com Setubal (2007), a práxis profissional exige a incorporação do ato investigativo em seu processo de trabalho. Isso significa dizer que as demandas apresentadas ao profissional não se manifestam, de imediato, em sua essência[5]. São constituídas por múltiplas determinações e exigem do profissional – por meio da investigação em seu fazer cotidiano – compreendê-las em sua relação macroscópica, deixando a mera aparência fenomênica do objeto para adentrar no objeto em si. A atuação profissional deve mover-se de uma conduta puramente contemplativa para uma de caráter investigativo/reflexivo. O conjunto destes elementos possibilitará incorporar à prática do Assistente Social uma práxis profissional. O principal desafio que se a coloca a profissão é, pois, necessariamente o de transformar a mera prática profissional em práxis, isto é: simples atividade em ação transformadora. “Somente a concepção da práxis enquanto materialização da razão e esta constituída, constituinte e constitutiva do processo histórico, pode balizar adequadamente a relação materialidade/idealidade, teoria/prática e a racionalidade que daí deriva” (GUERRA, 1999, p. 184).

2.                  DIMENSÕES DO FAZER PROFISSONAL
          O exercício profissional do Assistente Social, para que se constitua numa totalidade e possibilite a objetivação da práxis profissional, exige a articulação de três dimensões essenciais: teórico-metodológica, ético-política e técnico-operativa. Tais dimensões constituem uma unidade orgânica da profissão que, segundo Santos, Filho e Backx (2012), possibilitam compreender o significado social da atuação profissional em seus aspectos formativos, interventivos e investigativos. Neste sentido, embora as dimensões acima referidas apresentem particularidades inerentes a sua própria composição, não podem ser pensadas de maneira desarticuladas no exercício profissional. A separação que se segue para a explanação acerca das três dimensões da profissão encontrar-se-ão de maneira pontuada apenas para fins didáticos e metodológicos, procurando explorar e evidenciar, para o leitor, suas particularidades. Salienta-se, no entanto, novamente que as competências teórico-metodológica, ético-política e técnico-operativa constituem-se numa relação que só pode ser pensada de forma intrínseca e articulada.

2.1              TEÓRICO-METODOLÓGICA
         De acordo com Guerra (2009), compreender a dimensão teórico-metodológica implícita ao exercício profissional requer considerar os fundamentos históricos que perpassaram os embasamentos teóricos e os direcionamentos da profissão nas distintas conjunturas históricas. A apreensão do referencial teórico-metodológico adotado nos diferentes momentos históricos pela categoria profissional permite assimilar a orientação e a direção social imprimida sob as demandas que lhe chegam por meio de seu cotidiano profissional.
Segundo Yazbek, Martinelli e Raichelis (2008), a gênese do Serviço Social – na década de 1930 – esteve intimamente vinculada às instituições filantrópicas da Igreja Católica. Os grupos sociais formados, em sua maioria, por moças católicas realizavam ações de caráter assistencialista, baseando-se nos princípios da moralidade e solidariedade cristã. Atuavam na perspectiva de restaurar e enquadrar o indivíduo ao meio social. Tais ações baseavam-se nas encíclicas papais e no pensamento de São Tomás de Aquino, numa clara intenção de adequar valores e comportamentos do cliente as relações sociais vigentes sob o enfoque da psicologização e moralização do indivíduo e da família. Tratava-se, portanto, de uma ação pautada num referencial teórico-metodológico responsável por culpabilizar o indivíduo e corrigir seus desvios pela via da moralidade confessional. 
          A partir da década de 1940[6], conforme Yazbek, Martinelli e Raichelis (2008), o Serviço Social passa a se aproximar do referencial teórico positivista norte-americano: centrado num enfoque estrutural-funcionalista, a reorientação da profissão desenvolve-se a partir da perspectiva de solidariedade humana assentada no suporte técnico de base positivista. Esta configuração inaugura o que se conhece por arranjo teórico doutrinário. Embora com uma nova roupagem, caracterizou-se por garantir a reprodução do lastro conservador no interior da profissão: a principal diferença existente entre o referencial teórico da gênese do Serviço Social para o da década de 1940 reside no fato de que enquanto o primeiro pautava-se numa perspectiva confessional – associada aos dogmas e princípios da Igreja Católica –, o segundo baseava-se num conservadorismo laico, combinando práticas assistencialistas com bases científicas. Neste momento histórico, o referencial teórico-metodológico que embasava a ação profissional visava corrigir as disfuncionalidades individuais e técnicas do homem a fim de enquadrá-lo ao mundo do trabalho e nas relações capitalistas.  
           De acordo com Yazbek, Martinelli e Raichelis (2008), a década de 1960 representou para a profissão o questionamento de seus próprios referenciais teóricos. Este processo, desencadeado por meio do Movimento de Reconceituação Latino Americano, demarcou a necessidade de se construir um novo projeto profissional comprometido com as demandas dos trabalhadores. Três vertentes emergiram no bojo deste movimento, confrontando diferentes tendências no interior da profissão: 1) vertente modernizadora – caracterizada por uma abordagem funcional-estruturalista na perspectiva de integração do individuo na sociedade, baseando-se numa ação profissional de cunho técnico-burocrático; 2) vertente inspirada na fenomenologia – se desenvolveu a partir da concepção de pessoa, diálogo e transformação social. Tinha como objetivo centrar-se nas experiências individuais dos sujeitos a fim de reintegrá-los ao meio social pela via da psicologização; e 3) vertente marxista –  introduzida, num primeiro momento, na profissão por meio de um marxismo sem Marx. Por meio de abordagens reducionistas e, por vezes, equivocadas a incorporação desta vertente apresentava fragilidades do ponto de vista teórico, embora tenha possibilitado a profissão questionar sua prática institucional. Inicia-se, portanto, por meio da vertente marxista, o processo de ruptura com o Serviço Social tradicional.
             Na década de 1960, embora tais vertentes estivessem presentes no âmbito da profissão, com a instauração da ditadura militar brasileira, verificou-se um resgate intenso da vertente modernizadora. Este referencial teórico-metodológico representou para as ações profissionais uma criminalização da questão social, além de incumbir às políticas sociais uma característica autoritária, burocrática e centralizada. Esta tendência permaneceu presente na profissão até final da década de 1970, momento em que a realização do Congresso da Virada permitiu que a categoria profissional, já inspirada pela vertente marxista, identificar-se com o conjunto da classe trabalhadora e ao seu lado posicionar-se. A partir da década de 1980, portanto, a profissão passou a repensar o Serviço Social através de uma perspectiva crítica, redirecionando as ações profissionais e seu significado social. É nesta mesma década que a categoria também passa a se relacionar diretamente com as obras marxianas[7], adotando a teoria social crítica como vertente hegemônica no Serviço Social.
         Vê-se, a partir dos diferentes referenciais que embasaram a profissão em seus distintos momentos históricos, que a dimensão teórico-metodológica indica a direção social imprimida sob as respostas profissionais conferidas pelo Assistente Social. Ao deslocar-se de uma vertente conservadora[8] – cujo enfoque era o indivíduo – para uma corrente marxista – em que as expressões da questão social passam a ser consideradas em sua dimensão macroscópica, isto é, a centralidade reside na sociedade em suas classes sociais e não mais ao indivíduo de modo isolado –, a categoria profissional, embasada na teoria social crítica de Marx, incorpora novos horizontes que permitem compreender a questão social de maneira intrínseca ao modo de produção capitalista. Esta nova concepção, segundo Guerra (2009), foi a que inspirou o projeto ético político do Serviço Social e estabeleceu as competências exigidas para um novo perfil profissional: este passou a demandar dimensões técnicas e teórico-crítica para operar as demandas profissionais. O perfil profissional, delineado pelo projeto ético político, só pode se objetivar por meio de um sólido referencial teórico-metodológico que permita desvelar as demandas sociais de maneira crítico-analítico. É também por meio do referencial teórico-metodológico adotado pelo profissional que o possibilitará reconstruir criticamente as demandas de imediatas apresentadas[9]: a profissão é eminentemente de natureza interventiva, cujos encaminhamentos realizados pelo profissional denunciam seus posicionamentos ideopolíticos e o referencial teórico de que se parte. Pode-se dizer, portanto, que o exercício profissional é indissociável de um sólido embasamento teórico[10], da qual as dimensões ético-política e técnico-operativa são seus determinantes e reflexos.


2.2              ÉTICO-POLÍTICA
         Conforme Silva (1995), a dimensão ético-política do exercício profissional se materializa na objetivação de valores e princípios na arena política. Isso significa dizer que a atuação do assistente social e sua práxis é polarizada por interesses de classes sociais distintas: a prática profissional não pode ser executada fora destas relações de classes[11], fato que implica em afirmar que sua atuação na realidade social não é a-histórica e a-política; ao contrário, está tensionada por diferentes projetos sociais. Um projeto profissional é sempre social e coletivo, pois pressupõe a organização de princípios éticos e políticos que orientam a atuação dos profissionais de determinada categoria.
Os projetos profissionais apresentam a auto-imagem da profissão, elegem valores que a legitimam socialmente e priorizam os seus objetivos e funções, formulam os requisitos (teóricos, institucionais e práticos) para o seu exercício, prescrevem normas para o comportamento dos profissionais e estabelecem as balizas da sua relação com os usuários de seus serviços. (NETTO, 2007, p. 144 grifos do autor).
         Os projetos profissionais, segundo Netto (2007), são indissociáveis dos projetos societários, dado que estão associados a uma proposta de sociedade a ser construída, muito embora a formulação de projetos societários não se constituam em competências profissionais. O projeto profissional do Serviço Social, ao incorporar um projeto de sociedade, também expressa seu caráter de classe. Por este motivo, não é neutro e dotado de passividade. O projeto construído pela categoria profissional é enxertado de conteúdos políticos: se expressa, de acordo com Silva (1995), por sua vinculação de classe no contexto das relações sociais, desmistificando o mito da neutralidade política idolatrada pelo conservadorismo. É importante ressaltar que a dimensão política da profissão não se confunde com a mera militância política partidária. A atuação profissional exige a articulação com organizações coletivas da sociedade, buscando nelas elementos de sustentação para a prática profissional associada à execução de serviços. A militância nestas organizações desenvolve-se enquanto demanda concreta colocada pela dimensão política da própria profissão, muito embora a militância não se constitua em elemento determinante da ação profissional. Têm-se, portanto, que dimensão política e militância partidária são atividades distintas.
Essas atividades, porém, não se confundem, considerando que a militância política é uma prática desenvolvida no nível das instâncias organizativas da sociedade como sindicatos, associações, partidos, movimentos etc. É desenvolvida na esfera do exercício da cidadania e não na esfera da ação profissional. O caráter político da prática profissional se evidencia a partir da função educativa que essa prática assume na inserção no contexto das relações sociais. (SILVA, 1995, p. 246-247).
Noutras palavras: a dimensão política do exercício profissional está associada à possibilidade de desenvolver ações profissionais que sejam capazes de estimular ou inibir a luta política das classes sociais no interior da sociedade, levando em conta as tensões societárias contraditórias. Considerar a dimensão política da profissão, conforme Silva (1995), também implica em compreendê-la no âmbito da correlação de forças sociais distintas na estrutura da sociedade: o significado social da profissão permite apreender o Serviço Social enquanto profissão inserida no contexto das relações sociais. Ao mesmo tempo em que busca legitimar e garantir os direitos da classe trabalhadora, o Assistente Social também é pressionado pelas exigências da instituição que o emprega. Esta relação contraditória não deixa de exprimir os conteúdos políticos da própria profissão e compreendê-los significa munir-se de elementos centrais para desvelar as demandas cotidianas e imprimir sob elas encaminhamentos embasados no projeto de classe a que está vinculado.
           De acordo com Guerra (2005), a dimensão política da profissão não se separa da dimensão ética. Ao constituir-se enquanto unidade, o aspecto ético-político preocupa-se em objetivar, por meio da ação profissional, valores coletivos e princípios[12] comprometidos com os fundamentos da profissão. Esta dimensão se preocupa ainda com as implicações éticas do exercício profissional, isto é, a necessidade de adequar meios e fins visando proporcionar, intencionalmente, uma direção estratégica das finalidades que se pretende alcançar. Tais finalidades devem estar comprometidas com os valores e princípios construídos pela categoria profissional, sendo o aspecto político elemento de mediação fundamental para compreender as correlações de forças, as contradições e as tensões sociais presentes no cotidiano profissional e materializadas por meio das demandas.
O exercício profissional, segundo Guerra (2005), ao ser norteado pela dimensão ético-política deve fortalecer os valores coletivos, democráticos e emancipatórios, contrapondo-se aos princípios arbitrários, individualistas e coercitivos. Conforme Silva (1996) é importante ressaltar que os princípios éticos que nortearam a profissão metamorfosearam-se ao longo de sua trajetória: “[...] se os atos éticos estão atravessados pelas diferentes visões de mundo dos indivíduos, é certo, então, que diferentes concepções de ética encontram-se presentes ao longo do processo histórico de institucionalização das profissões” (SILVA, 1996, p. 139). A construção do projeto ético-político – tendo suas raízes na década de 1960 com o movimento de Reconceitução Latino-Americano e materializando-se de modo concreto na década de 1990 – e a existência de uma nova ética profissional[13] consolidaram a tradição marxista como referencial teórico-crítico hegemônico da categoria profissional[14]. Parte-se, portanto, do pressuposto de que os princípios e valores que norteiam a profissão devem ser interpretados a partir deste referencial. É somente tendo clareza do arcabouço teórico-metodológico adotado pela categoria, da dimensão política e social da profissão que se pode desenvolver uma leitura dos princípios que regem o exercício profissional de maneira coerente e comprometida com o projeto ético-político do Serviço Social. Interpretar os valores coletivos da profissão de maneira dissociada do referencial crítico significa a possibilidade de correr o risco de se objetivar, na prática profissional, princípios contrários e, por vezes, equivocados[15] dos sinalizados pelos arsenais teóricos e normativos da profissão.
A dimensão ético-política do exercício profissional, pois, potencializa e objetiva valores e princípios sob as demandas sociais. Esta se relaciona intimamente com a dimensão teórico-metodológica, dado que imprimirão determinada direção social as respostas profissionais. Ambas se articularão com a dimensão técnico-operativa na medida em que a operacionalização concreta de instrumentais pelo profissional viabilizarão o processo de trabalho do Assistente Social nos diversos espaços sociocupacionais, pressupondo necessariamente a compreensão da dimensão teórico-metodológica e ético-política.          

2.3              TÉCNICO-OPERATIVA
Segundo Santos, Filho e Backx (2012), a dimensão técnico-operativa do Serviço Social apresenta algumas particularidades: representa a “[...] ‘forma de aparecer’ da profissão, na dimensão ‘pela qual [...] é conhecida e reconhecida’ [...]” (SANTOS; FILHO; BACKX, 2012, p. 17). Esta dimensão se caracteriza pela operacionalização dos instrumentos de trabalho necessários a objetivação do exercício profissional; poder-se-ia dizer que representa a síntese do fazer profissional do Assistente Social e o modo de ser da profissão.
Apesar da dimensão técnico-operativa se expressar, de imediato e de maneira aparente, sob a forma de instrumentais e técnicas[16], sua compreensão deve ultrapassar a mera formalidade operacional do exercício profissional. Isso significa dizer que, de acordo com Santos, Filho e Backx (2012), os instrumentos e a dimensão técnico-operativa não se confundem, isto é, constituem uma unidade na diversidade. Enquanto os primeiros auxiliam no desenvolvimento da prática profissional, como simples mecanismos de suporte para a ação, o segundo constitui-se como aspecto que engloba outras dimensões: necessariamente a teórico-metodológica e a ético-política. É importante ressaltar que, embora os instrumentais sejam apropriados pelo Serviço Social a fim de viabilizar a intervenção, não foram criados por ele. “É através do uso [...] dos instrumentais [...] que as respostas são dadas; mas eles não se confundem, e nem podem ser confundidos, com as respostas profissionais” (SANTOS; FILHO; BACKX, 2012, p. 22). Os instrumentos[17] são, portanto, apenas um dos elementos que compõe a dimensão técnico-operativa e possibilitam a objetivação de planos, programas e projetos profissionais no contexto das relações sociais.
Segundo Guerra (2012), a intervenção socioprofissional só pode se realizar na dinâmica do cotidiano[18]. Tal intervenção demanda a necessidade de ações instrumentais para subsidiar a atuação do Assistente Social. Por esse motivo é possível que se afirme que a profissão é eminentemente operativa. O manuseio de instrumentos e técnicas no fazer cotidiano deve, no entanto, ultrapassar a simplória mecanicidade de sua utilização. Não se pretende afirmar que os instrumentais não devam ser incorporados no desenvolvimento das ações profissionais, mas advertir para o fato de que sua operacionalização deve estar associada a uma intencionalidade: implica considerar que sua utilização pode acarretar implicações éticas e políticas e no fortalecimento de determinadas relações sociais. A prática irrefletida, isto é, que compreende as demandas pela sua aparência, torna a ação profissional mero apêndice do senso comum. O uso dos instrumentais como um fim em si mesmo acarreta em respostas profissionais puramente mecânicas e técnicas, o que acaba por tornar o “[...] Serviço Social um meio para o alcance de quaisquer finalidades” (GUERRA, 2012, p. 48) e em qualquer direção social.
Conforme Guerra (1999), se é correto afirmar que a dimensão técnico-operativa representa a forma pela qual a profissão é reconhecida, isto é, se expressa o fazer profissional, também é verdade dizer que tal dimensão não pode adquirir um status superior em relação as demais dimensões intrínsecas ao exercício profissional. Na medida em que a dimensão técnico-operativa atingir grau de importância maior, o uso dos instrumentos e técnicas para viabilizar a atuação profissional pode cair numa tendência de sustentação do fetichismo. Este fetichismo que pode ser incorporado à dimensão técnico-operativa reside no fato de tomar os instrumentais e técnicas como elementos determinantes e únicos para operacionalizar as respostas profissionais, excluindo as dimensões teórico-metodológica e ético-política.
Os instrumentos e técnicas, segundo Guerra (1999), são determinados social e historicamente pela dinâmica das relações sociais e de maneira independente a constituição do próprio Serviço Social. Isso não significa dizer que a profissão não se aproprie dos instrumentais e técnicas construídos; ao contrário: sua incorporação ocorre de maneira independente do referencial teórico-metodológico adotado pelos profissionais, dado que o uso de instrumentais é fundamental para o desenvolvimento de quaisquer ações profissionais. É, no entanto, a partir da apropriação destes instrumentos pela profissão, que os assistentes sociais irão valer-se da dimensão teórico-metodológica para imprimir uma direção social a seu fazer profissional, viabilizados pela operacionalização dos instrumentos e técnicas. Por essa razão, pode-se afirmar que o assistente social não é apenas um profissional técnico – por manusear instrumentos e técnicas –, mas, sobretudo, é um agente
[...] crítico, já que o domínio do instrumental requisita-lhe um conhecimento das finalidades e das formas de alcançá-las, e estas não se encerram na razão de ser do Serviço Social. Antes, incorporam a razão de conhecer a profissão, suas condições e possibilidades (GUERRA, 1999, p. 169).

              O uso crítico dos instrumentais e técnicas pelos profissionais só pode se concretizar por meio do compromisso com o projeto ético-político do Serviço Social. Ao desvinculá-los dos princípios e valores coletivos preconizados pelo referido projeto, bem como utiliza-los de maneira dissociada, o profissional passa, novamente, a atribuir mais valor à dimensão técnico-operativa e a tomar os instrumentais enquanto forma de ser única da profissão. “O fetiche, enquanto ‘escopo do mundo moderno’, também penetra as representação e auto-representações dos assistentes sociais sobre os elementos que mediatizam a sua intervenção” (GUERRA, 1999, p. 169).
Superar este fetiche dos instrumentais implica necessariamente em articular as três dimensões intrínsecas a ação profissional: seu manuseio não pode estar dissociado da competência teórico-metodológica e ético-política se o que se pretende é o compromisso de garantir respostas profissionais comprometidas com o projeto profissional do Serviço Social. As dimensões teórico-metodológica, ético-política e técnico-operativa, embora possuam suas próprias particularidades e especificidades – diferenciando-se em níveis diversos entre si – não apresentam distintos graus de importância: se completam entre si e se auto sustentam, garantindo a existência de uma unicidade orgânica de que se deve apropriar o fazer e a práxis profissional.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir dos elementos elencados ao longo deste artigo, podem-se apontar duas conclusões principais: 1) a práxis profissional no âmbito da intervenção do Assistente Social só pode descolar-se do campo da mera atividade contemplativa para uma prática refletida, consciente e racional, a partir da articulação das dimensões teórico-metodológica, ético-política e técnico-operativa. Estas, em sua unicidade, possibilitam desvelar as demandas sociais colocadas no cotidiano e imprimir uma direção social que também possibilite ultrapassar a aparência fenomênica das relações cotidianas; 2) articular as três dimensões intrínsecas à profissão no exercício profissional é tarefa preconizada para colocar em movimento o projeto profissional do Serviço Social. Isso significa dizer que o projeto ético-político não se realiza sem a materialização articulada das dimensões teórico-metodológica, ético-política e técnico-operativa. Pressupõe seu vínculo orgânico para se constituir em totalidade social.
Tais conclusões apontam a necessidade e a importância de se compreender as três dimensões constitutivas da profissão – teórico-metodológica, ético-política e técnico-operativa – para diferenciá-las das expressões do exercício profissional – interventiva, investigativa e formativa. Conforme Santos, Filho e Backx (2012), tais expressões não ocupam um lugar secundário na atuação profissional em detrimento das dimensões constitutivas. No entanto, é através das competências teórico-metodológica, ético-política e técnico-operativa que se possibilita compreender e desenvolver as dimensões de natureza interventiva, investigativa e formativa da profissão. Por este motivo, ter a clareza desta diferenciação é fundamental para subsidiar as ações profissionais e desenvolver respostas em sintonia com as dimensões constitutivas da profissão e com as expressões do exercício profissional.

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 YAZBEK, Maria Carmelita; MARTINELLI, Maria Lúcia; RAICHELIS, Raquel. O serviço social brasileiro em movimento: fortalecendo a profissão na defesa dos direitos. Revista Serviço Social e Sociedade. nº 95, ano XXIX, setembro 2008, p. 5-32.





[1] Alícia Beatriz Mallmann Piccinin, acadêmica do 4º ano do curso de Serviço Social na Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE – campus de Toledo, alicia.mallmann@gmail.com.
[2] Mirele Hashimoto Siqueira, acadêmica do 4º ano do curso de Serviço Social na Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE – campus de Toledo, mirelehashimoto@hotmail.com.
[3] De acordo com Vázquez (1977), existem diferenças entre capacidade cognoscitiva e teleológica: “[...] enquanto a primeira se refere a uma realidade presente que pretende conhecer, a segunda diz respeito a uma realidade futura, portanto ainda inexistente. Por outro lado, enquanto a atividade cognoscitiva em si não implica numa exigência de ação efetiva, a atividade teleológica traz implícita uma exigência de realização, em virtude da qual se tende a fazer da finalidade uma causa da ação real” (VÁZQUEZ, 1977, p. 191).
[4] Como bem argumenta Kosik (1976): “A práxis do homem não é atividade prática contraposta à teoria; é determinação da existência humana como elaboração da realidade” (KOSIK, 1976, p. 222, grifos do autor).
[5] Segundo Netto (2009), embora o caminho do método marxista determine como percurso metodológico – para o desvelamento de determinado objeto – o movimento que vai da aparência para a essência, não se pode descartar a imediaticidade em que o objeto se apresenta, visto que a aparência também se manifesta como elemento constitutivo da própria essência e, portanto, não deve ser desconsiderado.
[6] “Com o crescimento das demandas por bens e serviços por parte de trabalhadores, o Estado brasileiro, particularmente na década de 1940, é pressionado no sentido de desenvolver ações sociais e passa a intervir diretamente no processo de reprodução social, assumindo papel de regulador dessas relações, tanto na viabilização do processo de acumulação capitalista como na atenção à necessidades sociais da população. Essa reorientação da profissão, voltada ao atendimentos das novas configurações do desenvolvimento capitalista, exige a qualificação de um espaço sócio-ocupacional para atender as requisições de um Estado que começa a implementar políticas sociais” (YAZBEK; MARTINELLI; RAICHELIS; 2008, p. 12-13).
[7] A introdução de obras embebidas da fonte direta ao recurso de Marx no Serviço Social se deu pela publicação da obra Relações Sociais e Serviço Social (1982) de Marilda Villela Iamamoto e Raul de Carvalho e, posteriormente, pelo livro Ditadura e Serviço Social: uma análise do Serviço Social no Brasil pós-64 (1990) de José Paulo Netto.
[8] Apesar da década de 1980 caracterizar-se pelo processo de ruptura com o conservadorismo, é notório que, de acordo com Yazbek (2009), a década seguinte vem evidenciando “[...] o confronto com a denominada ‘crise’ dos modelos analíticos [...] no mundo do conhecimento começam as interferências, não sem conflitos, do denominado pensamento pós-moderno, ‘notadamente em sua vertente neoconservadora’ que questiona e nivela os paradigmas marxista e positivista. [...] A abordagem pós-moderna dirige sua crítica à razão afirmando-a como instrumento de repressão e padronização, propõe a superação de utopias, denuncia a administração e o disciplinamento da vida, recusa a abrangência das teorias sociais com suas análises totalizadoras e ontológicas sustentadas pela razão e reitera a importância do fragmento, do intuitivo, do efêmero e do microssocial (em si mesmos) restaurando o pensamento conservador e antimoderno” (YAZBEK, 2009, p. 157).
[9] Embora o novo perfil profissional sinalizado pelo projeto ético político do Serviço Social sinalize o desenvolvimento de competências e desvelamento de demandas por meio de uma perspectiva inspirada na vertente marxista – materialismo histórico dialético –, não se pretende concluir que todos os profissionais Assistentes Sociais adotem o referencial teórico crítico. “Trata-se de um debate plural, que implica na convivência e no diálogo de diferentes tendências, mas que supõe uma direção hegemônica. [...] em diferentes espaços, o conjunto de tendências teórico-metodológicas e posições ideopolíticas se confrontam” (YAZBEK, 2009, p. 151-152). 
[10] Segundo Yazbek (2009), a existência de um sólido referencial teórico-metodológico, além de possibilitar imprimir determinada direção social às demandas profissionais, reduz os riscos de posicionamentos ecléticos “[...] que conciliam o inconciliável ao apoiarem-se em pensamentos divergentes” (YAZBEK, 2009, p. 152).
[11] Como bem argumenta Marx (2008), “[...] na produção social da própria existência, os homens entram em relações determinadas, necessárias, independentes de sua vontade [...]” (MARX, 2008, p. 47).
[12] Tais valores e princípios se materializam, sobretudo, por meio do Código de Ética Profissional do Assistente Social de 1993, da Lei de Regulamentação da Profissão – Lei n° 8.662/93 – e das Diretrizes Curriculares de 1996.  
[13] De acordo com Paiva e Sales (1996), a nova ética profissional se expressa por meio da ruptura com os elementos dos Códigos de Ética anteriores – 1947, 1965 e 1975 – ao de 1986 que nortearam a profissão. “O Código de 1986 representa um marco da ruptura ética e ideopolítica do Serviço Social com a perspectiva no neotomismo e também com o funcionalismo, influências tradicionais do Serviço Social até então. Isto fica evidente quando, de maneira simples, esse código postula novos deveres para os assistentes sociais, tais como democratizar as informações e tentar alterar a correlação de forças no âmbito institucional” (PAIVA; SALES, 1996, p. 175). A necessidade de revisão do Código de Ética de 1986 se deu por se mostrar “[...] em certos aspectos, insuficiente do ponto de vista teórico e filosófico, e também apresentou fragilidades quanto à sua operacionalização no cotidiano profissional” (PAIVA; SALES, 1996, p. 176). Esta revisão resultou na elaboração do atual Código de Ética de 1993 que muito embora não tenha representado uma ruptura com o Código anterior e com seu referencial teórico adotado, aperfeiçoou a dimensão normativa e estabeleceu elementos jurídico-legais.
[14] Para maiores esclarecimentos retomar nota 9.
[15] Um exemplo de interpretação de princípios dissociada do referencial teórico hegemônico da categoria refere-se à liberdade: “[...] Esse princípio solicita que se tenha a compreensão no exercício do Serviço Social, de que a necessidade da liberdade não pode ser suplantar o ideal da igualdade; a igualdade requer a liberdade e vice-versa. Não se trata de uma concepção de liberdade como a presente no liberalismo, que a percebe apenas como livre-arbítrio ou que coincide com o individualismo. Não é possível reduzi-la ao estrito âmbito das decisões individuais, pois a experiência da liberdade se constitui como uma construção coletiva. [...] o conceito de liberdade que a que faz referencia o Código de Ética dos Assistentes Sociais exige a sua própria definição, apontando para uma nova direção social, que tenha o individuo como fonte de valor, mas dentro da perspectiva de que a plena realização da liberdade de cada um requer a plena realização de todos. Para tanto, é preciso garantir as demandas que a elas se vinculam – a autonomia, a emancipação e plana expansão dos indivíduos sociais. Sabe-se, contudo, que esse projeto de realização da liberdade é colidente com a dinâmica social capitalista que em si é limitadora da liberdade, quase sempre reduzida aos seus termos formais e jurídicos” (PAIVA; SALES, 1996, 181-182).
[16] Conforme Santos, Filho e Backx (2012), embora os instrumentais e técnicas sejam os elementos mais expressivos da dimensão técnico-operativa “[...] vale ressaltar que até mesmo o que se denomina de instrumental técnico-operativo ultrapassa as técnicas e os instrumentos; ele incluiria os conjunto das ações e procedimentos adotados pelo profissional, visando à consecução de uma determinada finalidade ,bem como a avaliação sistemática sobre o alcance dessas finalidades e dos objetivos da ação” (SANTOS; FILHO; BACKX, 2012, p. 20).
[17] De acordo com Santos, Filho e Backx (2012), alguns instrumentos de que se vale o exercício profissional do Assistente Social podem ser apontados: 1) observação implica“[...] em um conjunto de reflexões que permite compreender o mundo no qual se está inserido” (SANTOS; FILHO; BACKX, 2012, p.24); 2) relacionamento “[...] tem uma intencionalidade e dele se vale sistematicamente o assistente social. [...] Além de sempre presente em qualquer forma de atendimento à população usuária, a partir dele é possível se estabelecer (ou não) relações mais ou menos democráticas, mais ou menos autoritárias, de dependência ou autonomia, ou seja, é através do relacionamento que se estabelece ou não essas relações” (SANTOS; FILHO; BACKX, 2012, p.24); 3) abordagem “[...] vista como um canal de comunicação com a população, como um primeiro contato, no sentido de se criar uma possibilidade de ligação entre os diferentes espaços” (SANTOS; FILHO; BACKX, 2012, p. 24); 4) entrevista “[...] é empregada quando se faz necessário entender um pouco mais sobre o usuário” (SANTOS; FILHO; BACKX, 2012, p.25); 5) grupos e reuniões; 6) informação; 7) visita domiciliar utilizada “[...] como uma afirmação de direitos, [...] deve ser muito bem justificada e contextualizada” (SANTOS; FILHO; BACKX, 2012, p.27); e 8) encaminhamento.
[18] “A vida cotidiana é a vida de todo homem. Ninguém consegue identificar-se com sua atividade humano-genérica a ponto de poder desligar-se inteiramente da cotidianidade” (HELLER, 1985, p.17).
PRESSUPOSTOS PARA UMA ÁNALISE DA EDUCAÇÃO EM GRAMSCI

Alícia Beatriz Mallmann Piccinin[1]
Mirele Hashimoto Siqueira[2]

Movimentos, Lutas Sociais e Organização Política da Classe Trabalhadora

INTRODUÇÃO
Este artigo é fruto de inquietações advindas a partir da participação nas aulas promovidas pelo Núcleo Temático: Política de Educação no Contexto da Sociedade Brasileira, disciplina constituinte do Projeto Político Pedagógico do curso de Serviço Social da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE –, no ano de 2015, ministrada pela docente Doutora Cleonilda Sabini Thomazini Dallago.
Considerando a educação como elemento central no processo de formação da consciência humana e como possibilidade de alcançar a emancipação social, busca-se neste artigo desenvolver a hipótese de como a escola pode se colocar como instituição responsável por viabilizar tal processo a partir de uma perspectiva gramsciniana[3]. De acordo com Simionatto (1995), Gramsci vivenciou um período em ocorria a ascensão do capitalismo na Itália. Aproximou-se das discussões acerca da educação a partir das críticas realizadas à reforma de Gentile[4]. Esta acentuava o princípio da profissionalização no interior da escola elementar-média. A partir dessa reforma, Gramsci elabora uma proposta de escola única e comum ou escola unitária destinada a formação humanista e desinteressada do trabalho.
Dentro desta perspectiva, considerar a educação em Gramsci é, necessariamente, levar em conta o papel da escola na (re)produção ou transformação da ordem social e política. Por ser condicionada por parâmetros e imperativos burgueses, a educação deve ser analisada em sua relação com estrutura econômica. Neste sentido, a primeira parte deste artigo tem como objetivo de analisar a associação intrínseca e dialética entre educação e sociedade a partir de uma concepção gramsciniana. Considerar tal relação implica em desvelar a luta de classes no contexto da sociedade capitalista de modo a compreender a educação como resultante desta luta e instrumento que pode tanto reforçar a dominação econômica e ideológica burguesa, quanto viabilizar uma mudança estrutural nas formas políticas e sociais.
A partir destas discussões, a segunda parte do artigo procura evidenciar a função da educação na elaboração de intelectuais orgânicos capazes de levar a cabo a tomada de consciência do proletariado. Os intelectuais orgânicos da burguesia e do proletariado, em constante disputa pela assimilação ideológica do conjunto de homens da sociedade, encontram na educação os pressupostos para a mediação da conquista de sujeitos sociais que irão dar sustentação ao seu projeto de classe. Apoiando-se numa concepção gramsciniana, procura-se desenvolver a importância das discussões acerca da educação, enfatizando o caráter teórico e potencial da escola unitária no contexto da sociedade capitalista.

1 EDUCAÇÃO E SOCIEDADE: UMA CONCEPÇÃO GRAMSCINIANA
Compreender o papel da educação na perspectiva gramsciniana requer, antes de tudo, considerar a escola como elemento central para a transformação das relações sociais. Sua função
[...] pode ser, em certa medida, transformadora, sempre que possa proporcionar às classes subalternas os meios iniciais para que, após uma longa trajetória de conscientização e luta, se organizem e se tornem capazes de ‘governar’ aqueles que as governam. (MOCHCOVITCH, 1988, p. 7)
Para Mochcovitch (1988), embora a educação tenha a possibilidade de proporcionar ao proletariado formas de engendrar uma mudança na forma organizativa da produção, Gramsci não descarta o papel educacional na reprodução das relações sociais capitalistas. Estas, por seu turno, procuram produzir e reproduzir uma classe trabalhadora conformada, subalterna e dominada pelas amarras estruturais da classe dominante. Neste contexto, compreender o papel desempenhado pela educação e, por conseguinte, pela escola, implica considerar a relação entre estrutura e superestrutura. Tais categorias assumem algumas características diversas e específicas nas perspectivas concebidas por Marx e, mais tarde, por Gramsci. Entretanto, pode-se dizer que apoiando-se num referencial teórico marxiano, Gramsci não nega seus principais fundamentos, mas contribui, decisivamente, para a ampliação de muitas de suas perspectivas.
Para Marx (2008), a produção da vida social e da existência humana é condicionada pelas relações sociais de produção e determinada por certo grau de desenvolvimento das forças produtivas. O conjunto desses elementos constitui a estrutura econômica de uma determinada forma de organização social, cuja sociedade civil faz parte. Segundo Bobbio (1982), a sociedade civil corresponde ao conjunto de toda a vida social pré-estatal e compreende o elemento decisivo a partir do qual se elevará uma superestrutura jurídica e política, responsável por abarcar a dimensão do Estado. Bobbio (1982) também caracteriza a concepção marxiana de estrutura-superestrurura como relação determinada pela antítese entre sociedade civil e Estado, pois “[...] se é verdade que a sociedade política não esgota o momento superestrutural, é igualmente verdade que a sociedade civil coincide – no sentido de que tem a mesma amplitude – com a estrutura” (BOBBIO, 1982, p. 31). A sociedade civil, pois, é para Marx, o elemento estrutural determinante sobre o qual se constitui a ordem política do Estado enquanto elemento determinado e inscrito no plano superestrutural.
Em Gramsci, a relação entre sociedade civil e Estado ganha um novo sentido na medida em que a soma destes dois elementos passam a caracterizar o plano superestrutural da sociedade. Conforme Bobbio (1982), ao contrário de Marx, Gramsci compreende a sociedade civil não apenas como o conjunto de relações econômicas, mas, sobretudo, como relações ideológico-culturais que, ao lado da sociedade política, formam o Estado ampliado. Enquanto para Marx a sociedade civil representa o momento ativo do desenvolvimento histórico e se localiza na esfera estrutural, para Gramsci a sociedade civil pertence, necessariamente, ao plano da superestrutura. Em outras palavras, em Gramsci,
[...] podem-se fixar dois grandes “planos” superestruturais: o que pode ser chamado de “sociedade civil” (isto é, o conjunto de organismos designados vulgarmente como “privados”) e o da “sociedade politica ou Estado”, planos que correspondem, respectivamente, a função de “hegemonia” que o grupo dominante exerce em toda a sociedade e àquela de “domínio direto” ou de comando, que se expressa no Estado e no governo “jurídico”. Estas funções são precisamente organizativas e conectivas (GRAMSCI, 2001, p. 21).
Nesse sentido, a escola, enquanto instituição responsável por veicular determinada ideologia de classe, localiza-se no plano superestrutural da sociedade e coloca-se como dever do Estado. Gramsci (2001) afirma essa questão na medida em que, no final de do século XIX, as discussões acerca da “escola comum e única[5]” adquirem maior fomento, num momento em que as democracias capitalistas europeias empenham-se em expandir o ensino público. “A ideia da educação como dever do Estado se difunde e se firma dentro deste processo de emancipação política e fortalecimento dos Estados Nacionais da ordem burguesa” (PAIVA, 1984, p. 19). Numa palavra: a educação como dever do Estado pode contribuir para a afirmação da ordem burguesa, pois fortalece a dinâmica de exploração intrínseca do sistema capitalista. A educação burguesa encontra na democratização do ensino a pretensa falácia do discurso de igualdade de oportunidades entre seres formalmente iguais numa ordem competitiva.
Para Mochcovitch (1988), duas formas de dominação podem ser identificadas como pressupostos para os parâmetros educacionais burgueses, a saber: a econômica e a político-ideológica. O primeiro momento dessa dominação refere-se à exploração do trabalho pelo capital.
[...] a época da burguesia, caracteriza-se [...] por ter simplificado os antagonismos de classe. A sociedade inteira vai-se dividindo cada vez mais em dois grandes campos inimigos, em duas grandes classes opostas entre si: burguesia e proletariado (MARX; ENGELS, 2011, p. 40).
Isso significa dizer que a dominação econômica tem sua gênese na luta de classes. Esta adquire características muito específicas na sociedade capitalista, pois “A burguesia rasgou o véu de comovente sentimentalismo que envolvia as relações familiares e as reduziu a meras relações monetárias [...] colocou a exploração aberta, despudorada, direta e árida” (MARX; ENGELS, 2011, p. 43). Essa dominação econômica reflete diretamente nos princípios educacionais burgueses, já que seu objetivo não é outro senão desenvolver e produzir uma massa de trabalhadores operários para sustentar o modelo de produção capitalista.
De acordo com Gramsci (2001), a dominação econômica é fomentada pela dominação político-ideológica. Sob a direção do Estado, este tipo de dominação encontra na força do aparelho repressor – sociedade política – e no consenso social – sociedade civil – os pressupostos necessários para sua manutenção. Assim, dois fatores podem ser destacados em relação à dominação econômica e ideológica: a interiorização da ideologia dominante pela classe trabalhadora e consequente ausência de uma consciência de classe do proletariado que lhe possibilite autonomia. Segundo Portelli (1977), as ideias da classe dominante configuram-se como a ideologia da classe dominante. Esta impõe-se como concepção de mundo e impregna todo o corpo social. Neste processo, o proletariado acaba por interiorizar os princípios e valores da cultura burguesa, difundidos pelas instituições superestruturais. A ideologia dominante tomada como consciência de classe do proletariado impede a luta contra hegemônica no processo de rompimento com a dominação econômica e ideológica burguesa. Não se identificando como classe trabalhadora, o proletariado não se reconhece como parte constituinte dessa classe. Para Gramsci (2001), pelo fato da dominação ideológica implicar numa subordinação intelectual, a classe trabalhadora constitui-se como o cimento da ideologia dominante. A ausência de uma consciência de classe em si e para si[6] que represente os ideais da classe proletária dificulta seu processo emancipatório e revolucionário. Neste sentido, a consciência de classe deve ser “[...] a ‘ética’ do proletariado, a unidade de sua teoria e de sua práxis, o ponto em que a necessidade econômica de sua luta emancipadora se transforma dialeticamente em liberdade” (LUKÁCS, 2003, p. 129).
Deste modo, a educação pode contribuir para a formação da consciência de classe do proletariado na medida em que, para Gramsci (2001), deve superar a distinção entre formação intelectual/humanista e profissional, pois
Não é a aquisição de capacidades diretivas, não é a tendência a formar homens superiores que dá a marca social de um tipo de escola. A marca social é dada pelo fato de que cada grupo social tem um tipo de escola próprio, destinado a perpetuar nestes grupos uma determinada função tradicional, diretiva ou instrumental. Se se quer destruir esta trama, portanto, deve-se evitar a multiplicação e graduação dos tipos de escola profissional, criando-se, ao contrário, um tipo único de escola preparatória (elementar-média) que conduza o jovem até os umbrais da escolha profissional, formando-o entrementes como pessoa capaz de pensar, de estudar, de dirigir ou de controlar quem dirige. A multiplicação de tipos de escola profissional, portanto, tende a eternizar as diferenças tradicionais; mas, dado que ela tende, nestas diferenças, a criar estratificações internas, faz nascer a impressão de possuir uma tendência democrática (GRAMSCI, 1982, p. 136-137).
Gramsci (1982) entende a escola profissionalizante como uma forma imediatista de sujeitar a socialização das crianças e dos jovens a uma formação submetida à lógica da produção que contribui para o enrijecimento das diferenças sociais. Este tipo de escola está mais preocupada em direcionar a massa proletária aos imperativos e necessidades impostas pelos interesses práticos do sistema para sua constante reprodução. Trata-se, portanto, de um processo progressivo de degenerescência da educação sob uma aparência democrática. Para ele, essa crise pode ser superada na medida em que se difunda uma escola desinteressada que combine formação humanista e profissional. Esta escola deve não apenas desenvolver a capacidade técnica produtiva do homem, mas também
[...] uma escola em que seja dada à criança a possibilidade de formar-se, de tornar-se um homem, de adquirir os critérios gerais que sirvam ao desenvolvimento do caráter. [...] Uma escola que não hipoteque o futuro da criança e constranja a sua vontade, sua inteligência, sua consciência em formação a mover-se dentro de uma bitola. [...] Uma escola de liberdade e de livre iniciativa e não uma escola de escravidão e mecanicidade (GRAMSCI, 1982, p. 59, grifo do autor).     
Este tipo de escola, cuja Gramsci (2001) caracteriza como escola unitária, significa, pois, possibilidades de construção de novas relações entre trabalho intelectual e trabalho industrial. Tais relações não se limitam apenas ao âmbito do espaço escolar; ao contrário, produz e reproduz novas relações sociais que repercutem ao longo de todo corpo da vida social. Introduzem novos elementos e conteúdos que modificam os organismos de cultura, a direção política da organização social e a elaboração de intelectuais capazes de dirigir tal organização. Isso significa dizer que pela via da educação colocam-se as possibilidades de superação do modelo de produção hegemônico a partir de um processo dirigido por intelectuais orgânicos, frutos do tipo de escola humanista proposta por Gramsci. Analisar a função da escola unitária como responsável pela elaboração de intelectuais que empunharão um processo revolucionário, pois, é fundamental para compreender a potencialidade contida no próprio princípio educativo e, por conseguinte, no sistema escolar.

2 O REFLEXO DA EDUCAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DOS INTELECTUAIS ORGÂNICOS
Num esforço de conceituar a categoria intelectual, Gramsci (2001) toma como ponto de partida algumas considerações acerca do trabalho manual e intelectual. Para o autor, não há uma distinção entre a natureza destes dois tipos de trabalho – como há em Marx –, pois mesmo a atividade mais manual e mecânica exige do homem certo dispêndio de qualificação técnica, isto é, de mínima atividade intelectual criadora. Assim, se Gramsci (2001) considera todos os homens como intelectuais – pelo fato de que todos despendem certo conhecimento técnico e, por conseguinte, intelectual no desenvolvimento de seu trabalho – não se pode dizer, contudo, que todos exercem a função de intelectuais no seio da sociedade, até porque “[...] o fato de que alguém possa, em determinado momento, fritar dois ovos ou costurar um rasgão no paletó não significa que todos sejam cozinheiros ou alfaiates” (GRAMSCI, 2001, p. 18).
Nesse sentido, identificar a função desempenhada pelos homens como intelectuais na sociedade requer superar um erro metodológico comum já apontado inicialmente por Gramsci (2001): a tendência em caracterizar o intelectual apenas pela via da descrição das atividades intrínsecas a sua função, em vez de entendê-las no contexto geral das relações sociais em que se inserem. O exercício da função intelectual, pois, se relaciona menos com a capacidade técnica produtiva do homem do que com sua capacidade dirigente. Gramsci (2001) aponta para essa dimensão na medida em que considera o intelectual como aquele que tem consciência de sua própria função não apenas na esfera econômica, mas, sobretudo, na política e social. Isso significa dizer que o homem exerce a função de intelectual no mesmo passo em que é um organizador da sociedade, capaz de governá-la por meio de sua capacidade dirigente e organizativo-ideológica. Por esse motivo, é bem verdade que se possa afirmar que todos os homens, ao despenderem certo quantum de atividade intelectual, sejam intelectuais. No entanto, o simples dispêndio de atividade intelectiva – e, por conseguinte técnica – não é suficiente para caracterizá-los como portadores da função intelectual. Enquanto no primeiro caso, a presença de conhecimento técnico é bastante para designar o conjunto de homens da sociedade como intelectuais, no segundo, é o predomínio da capacidade dirigente e organizativa, associada ao conhecimento técnico produtivo, que determina a função intelectual desempenhada por eles.
O antagonismo das classes sociais, expresso na particularidade do modo de produção capitalista, tende, segundo Gramsci (2001), a elaborar camadas de intelectuais orgânicos. Estes, ao representarem os grupos sociais que sustentam determinada estrutura econômica, personificam os atores sociais vinculados a trama da organização social dominante. No modo de produção capitalista, os intelectuais orgânicos não poderiam senão expressar o conjunto de intelectuais da burguesia e do proletariado. Ao sinalizar tais considerações, Gramsci (2001) demarca a existência de uma relação entre mundo da produção e elaboração intelectual. Tal relação atribui aos intelectuais a tarefa de conduzir a direção política e cultural de uma determinada classe social sobre o conjunto da sociedade, quer na condição de construtores de ideologias, quer na de funcionários da superestrutura.
A educação e, por conseguinte, a escola constitui-se como uma das mediações para a elaboração de intelectuais orgânicos. Esta instituição pode possibilitar a formação de dois tipos de intelectuais, a saber: aqueles responsáveis por garantir a hegemonia da classe dominante e aqueles que em seu processo de luta e resistência acabam por contribuir para a construção de uma nova ordem social e política. Ambos, por seu caráter dirigente e organizativo engendram uma luta de classes que dá corpo a ininterrupta luta histórica entre burguesia e proletariado.
Como um mecanismo estratégico da ordem social, a escola configura-se como uma instituição responsável por garantir a amarra do proletariado a dominação e subordinação econômica ideológica aos seus imperativos. Por outro lado, a educação pode ser também um instrumento capaz de fornecer as possibilidades a classe trabalhadora no tocante a sua emancipação. De acordo com Gramsci (1978), a contribuição da educação na formação do intelectual orgânico proletário deve ser a de proporcionar ao homem ativo de massa uma atuação prática com clara consciência teórica. Sua atividade deve ligar-se a um grupo social determinado que não deve ser outro senão aquele a que pertença originalmente: o proletariado.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante das discussões apresentadas, nota-se que frente a lógica posta pelo capitalismo aos padrões de uma escola burguesa, a possibilidade de tornar a educação como um instrumento transformador torna-se cada vez mais distante diante dos interesses adversos existentes entre burguesia e proletariado. Logo, para que os sujeitos sociais alcancem uma consciência de classe, é preciso possibilitar aos mesmos as bases para que isso se efetive. Contudo, tal condição não é almejada pelos padrões burgueses que visam uma educação voltada para a manutenção da estrutura capitalista.
Deste modo, a escola unitária proposta por Gramsci torna-se uma alternativa utópica, teoricamente construída, mas que não se pode afirmar ou negar sua funcionalidade, já que nunca foi posta em prática no contexto educacional. Apesar da impossibilidade de se comprovar a teoria da escola unitária de Gramsci, pode-se apontar para uma direção: o caminho para uma educação democrática e emancipatória, de acordo com Mészáros (2008), não se dá em uma ordem social desigual e excludente. As reformas produzidas pelo sistema educacional no âmbito desta ordem são apenas formais, pois continuam a transmitir e legitimar um quadro de valores burgueses. A educação somente conquistará sua possibilidade transformadora na medida em que promover uma mudança essencial na estrutura da sociedade. Não se produz um novo homem nas velhas formas econômicas e sociais. O desenvolvimento das potencialidades do ser social, pois, só pode ser plenamente concebido a partir de uma educação que vá para além do capital.

REFERÊNCIAS
BOBBIO, Noberto. O conceito de sociedade civil. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1982.

DICIONÁRIO Básico de Filosofia. Direção de Hilton Japiassú e Danilo Marcondes. Terceira edição revista e ampliada por Jorge Zahar Editor Rio de Janeiro: 2001.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Vol. 2; Edição e Tradução de Carlos Nelson Coutinho; co-edição de Luiz Sérgio Henrique e Marco Aurélio Nogueira. 2º Ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

________________. Os intelectuais e a organização da cultura. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. 4º edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982.

________________. Concepção dialética da história. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. 3º Edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.

LUKÁCS, Georg. História e consciência de classe: estudos sobre a dialética marxista. Tradução de Rodnei Nascimento. Revisão da tradução Karina Jannini. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. Tradução e Introdução de Florestan Fernandes. 2º Ed. São Paulo: Expressão Popular, 2008.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do partido comunista. Tradução Marcos Aurélio Nogueira e Leandro Konder. Petrópolis, RJ: Editores Vozes, 2011.

MÉSZÁROS, István. A educação para além do Capital. Tradução de Isa Tavares. 2º Edição. São Paulo: Boitempo, 2008.

MOCHCOVITCH, Luna Galano. Gramsci e a Escola. Série Princípios. Editora Ática: São Paulo, 1988.

PAIVA, Vanilda Pereira. Perspectivas e dilemas da educação popular. Rio de Janeiro: Graal, 1984.

PONCE, Aníbal. Educação e Luta de Classe. 23º ed. São Paulo: Cortez, 2010.
PORTELLI, Hugues. Gramsci e o bloco histórico. Tradução de Angelina Peralva. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.

SIMIONATTO, Ivete. Gramsci, sua teoria, incidência no Brasil, influência no Serviço Social. Florianópolis: Editora da UFSC; São Paulo: Cortez, 1995.



[1] Alícia Beatriz Mallmann Piccinin, estudante do 3º ano do curso de Serviço Social na Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE -  campus de Toledo, alicia.mallmann@gmail.com. 
[2] Mirele Hashimoto Siqueira, estudante do 3º ano do curso de Serviço Social na Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE -Campus de Toledo, mirelehashimoto@hotmail.com. 
[3] De acordo com o Dicionário Básico Filosófico (2001), esta perspectiva provém do político e pensador marxista italiano Antonio Gramsci (1891 – 1937), que foi um dos fundadores do Partido Comunista Italiano em 1921. Para ele, o marxismo deve ser interpretado como uma “filosofia da práxis”, como uma prática política revolucionária com uma firme base teórica. Divergiu da interpretação oficial do marxismo da União Soviética sob Stalin e procurou recuperar os elementos dialéticos hegelianos da teoria marxista. 
[4] “Giovanni Gentile (1875 – 1944) foi um filosofo político italiano, expoente da intelectualidade fascista. Pensador hegeliano de direita e [...] Ministro da Educação de 1922 a 1924, realizou uma reforma geral do ensino na Itália para o governo fascista. Morreu em 1944 executado por membros da Resistência italiana” (MOCHCOVITCH, 1988, p. 59).
[5] “[...] é a escola pública, laica (em que não se ministra ensino religioso), obrigatória e gratuita, aberta e garantida às crianças originárias de todas as classes sociais, que estudam as mesmas disciplinas, pelo mesmo currículo, por todas as séries ou graus que precedem o nível universitário, sem distinção entre formação humanista e formação profissional” (MOCHCOVITCH, 1988, p. 67).
[6] “A classe em si, apenas com existência econômica, se define pelo papel que desempenha no processo da produção; a classe para si, com existência econômica e psicológica, se define como uma classe que já adquiriu consciência do papel histórico que desempenha, isto é, como uma classe que sabe a que aspira. Para que a classe em si se converta em classe para si, e necessário, portanto, um longo processo de esclarecimento, em que os teóricos e as próprias peripécias da luta desempenham uma amplíssima função” (PONCE, 2010, p. 35).